Sabe aquela dor que vem do fundo
da alma? Dói tanto que só é possível chorar. Você nem sabe ao certo o que dói.
Pensamentos misturados. Que vão e que vem. Uma sensação terrível de que você
não vai dar conta das coisas. São muitos papeis, todos muito intensos. Nós
somos humanos e o dia continua tendo 24 horas. Incompreensões alheias e a auto
cobrança. Frustrações. Me sinto incapaz. Seria muito bom dormir para sempre.
Existem momentos em que tudo
parece estar fora do lugar. Não há ânimo para fazer as coisas mais simples da
vida. Por que comigo? Por que estou me sentindo assim? Por que não consigo
superar? Você que sempre foi otimista. Sempre levou uma palavra de esperança.
Sou jovem, tenho uma família
linda, tenho um emprego, uma casa, estudo, viajo. Não tenho o direito de ficar
triste. Existe quem tenha motivos para sofrer muito mais do que eu. Não tenho o
direito de ficar triste. Preciso criar minhas filhas, preciso trabalhar. O meu
trabalho interfere na vida de muita gente. Não posso, não tenho direito. Não
posso.
Está tudo fora do lugar. Não
estou mais conseguindo enxergar aquele mundo promissor, inclusivo, diverso. No
lugar vejo homofobia, racismo, sexismo e preconceito. Crise econômica, escola
sem partido, desemprego, delações premiadas. Cada vez mais pessoas em situação
de rua. Violência. Depois de tantos domingos marchando com as crianças por um
mundo que não fosse esse, não tenho mais forças. Preciso ser egoísta, preciso
concentrar o mínimo de energia em mim e nos meus, senão vou sucumbir.
Vamos lá. Colocar uma roupa e um
sorriso no rosto. Você tem compromissos, precisa cumprir. Preciso? Não, não
quero. Preciso viver a crise. Preciso me encontrar. Preciso experimentar.
Vivenciar. Fracassar. Errar. Preciso sentir toda a minha frágil humanidade.
Depois do choro profundo, vem o
silêncio. Me recolho e penso sobre mim, sobre os planos pra vida, sobre as
relações, sobre a família, sobre o amor. Vem as palavras das pessoas queridas. E
o “eu te amo e vou estar aqui sempre que você precisar”. Vem o diálogo. O dar
as mãos e olhar juntos na mesma direção, traçando planos para o futuro. Depois
o café com uma amiga. A terapia. O cinema. O abraço carinhoso das filhas que
sentem quando as coisas não vão bem. O aconchego das irmãs e aquele amor de pai
e mãe. Quanto cuidado. Não quero mais sofrer, não quero mais fazer sofrer.
Desse turbilhão, tiro uma lição:
Coisas boas não aconteceram em 2007, nem em 2017, posso pular 2027?
Brincadeiras à parte, vislumbro
que após uma longa madrugada de tempestades, as estrelas já estão a tiritar no
escuro do céu e o dia será de sol, sem nuvens. Meus olhos já podem ver com
clareza que haverá amor, companheirismo, amigos e tudo que é bom. Agora é
guardar a energia necessária para a luta que virá. Na outra metade da vida
precisaremos estar juntos e vigilantes, apoiando uns aos outros no sofrer
inevitável e celebrando as nossas vitórias.
Lívia Freitas
Ver com clareza...guardar a energia necessárta..Vislumbrar além das tempestades..celebrar..sempre
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