terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O dia será de sol, sem nuvens

Sabe aquela dor que vem do fundo da alma? Dói tanto que só é possível chorar. Você nem sabe ao certo o que dói. Pensamentos misturados. Que vão e que vem. Uma sensação terrível de que você não vai dar conta das coisas. São muitos papeis, todos muito intensos. Nós somos humanos e o dia continua tendo 24 horas. Incompreensões alheias e a auto cobrança. Frustrações. Me sinto incapaz. Seria muito bom dormir para sempre.

Existem momentos em que tudo parece estar fora do lugar. Não há ânimo para fazer as coisas mais simples da vida. Por que comigo? Por que estou me sentindo assim? Por que não consigo superar? Você que sempre foi otimista. Sempre levou uma palavra de esperança.

Sou jovem, tenho uma família linda, tenho um emprego, uma casa, estudo, viajo. Não tenho o direito de ficar triste. Existe quem tenha motivos para sofrer muito mais do que eu. Não tenho o direito de ficar triste. Preciso criar minhas filhas, preciso trabalhar. O meu trabalho interfere na vida de muita gente. Não posso, não tenho direito. Não posso.

Está tudo fora do lugar. Não estou mais conseguindo enxergar aquele mundo promissor, inclusivo, diverso. No lugar vejo homofobia, racismo, sexismo e preconceito. Crise econômica, escola sem partido, desemprego, delações premiadas. Cada vez mais pessoas em situação de rua. Violência. Depois de tantos domingos marchando com as crianças por um mundo que não fosse esse, não tenho mais forças. Preciso ser egoísta, preciso concentrar o mínimo de energia em mim e nos meus, senão vou sucumbir.

Vamos lá. Colocar uma roupa e um sorriso no rosto. Você tem compromissos, precisa cumprir. Preciso? Não, não quero. Preciso viver a crise. Preciso me encontrar. Preciso experimentar. Vivenciar. Fracassar. Errar. Preciso sentir toda a minha frágil humanidade.

Depois do choro profundo, vem o silêncio. Me recolho e penso sobre mim, sobre os planos pra vida, sobre as relações, sobre a família, sobre o amor. Vem as palavras das pessoas queridas. E o “eu te amo e vou estar aqui sempre que você precisar”. Vem o diálogo. O dar as mãos e olhar juntos na mesma direção, traçando planos para o futuro. Depois o café com uma amiga. A terapia. O cinema. O abraço carinhoso das filhas que sentem quando as coisas não vão bem. O aconchego das irmãs e aquele amor de pai e mãe. Quanto cuidado. Não quero mais sofrer, não quero mais fazer sofrer.

Desse turbilhão, tiro uma lição: Coisas boas não aconteceram em 2007, nem em 2017, posso pular 2027?

Brincadeiras à parte, vislumbro que após uma longa madrugada de tempestades, as estrelas já estão a tiritar no escuro do céu e o dia será de sol, sem nuvens. Meus olhos já podem ver com clareza que haverá amor, companheirismo, amigos e tudo que é bom. Agora é guardar a energia necessária para a luta que virá. Na outra metade da vida precisaremos estar juntos e vigilantes, apoiando uns aos outros no sofrer inevitável e celebrando as nossas vitórias.


Lívia Freitas  

Um comentário:

  1. Ver com clareza...guardar a energia necessárta..Vislumbrar além das tempestades..celebrar..sempre

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