terça-feira, 31 de outubro de 2017

Reflexões de um dia de trabalho.

Você apareceu na minha porta umas trinta vezes este ano.
Bateu, brigou, apanhou, irritou, atrapalhou.
Trouxe seu pai com uma história sem pé nem cabeça. Hoje acho que queria nos apresentar.
Sumiu.
Cruzava com você diariamente mas mantinha meu olhar afastado. Queria te dar a liberdade que merece.
Conversava com sua professora sobre suas dificuldades, seus avanços. Queria saber um pouco mais do seu percurso.
Hoje apareceu com outra história sem cabeça nem pé. Aproveitei e fui matar um pouco da saudade.
Conversamos sobre como andam as coisas, o que estava sentindo, o que estava aprendendo.
Lemos e escrevemos juntos. Comemoramos todos os avanços. Você saiu sabendo de toda a sua potência, consciente do seu caminho.
Muito, muito de você: da sua vontade, da sua disposição, da sua paciência com você mesmo.
Muito, muito da sua professora: que acreditou em você, nela mesmo, no seu trabalho e no poder de transformação do conhecimento.
Um dedinho bem pequenininho de mim: que trabalhou para que você e sua professora fossem abastecidos de boa parte do que precisavam para que superassem os desafios que enfrentaram e estão vencendo.
Que a calmaria que mora no fundo de mim possa conduzir meus próximos anos de trabalho. Que o prazer de compartilhar a vida e o conhecimento estejam presentes todos os dias. Que possibilitar o meu crescimento e o do outro seja a meta.

Para o filho do Rafael e aluno da professora Rosânia. 

Ana Maria Guabiraba. 

Trabalhar e Viver

A Arte e as gentes estimulam minha criatividade, sou comprometida com as belezas e delicadezas da vida e acredito tanto na evolução da humanidade, que só me restou como opção possível - para apaziguar minha alma - a docência em Artes; docência essa que realizo com muito trabalho. Enfim, escolhi a educação pública como espaço, porque latejo ideais que almejo alcançar com todos.

Ultimamente o trabalho está me custando demasiada energia. Uma doação de tempo que não consigo repor. Sou professora dentro e fora da escola: levo meus alunos, no pensamento, para casa. Sei que não é uma prática saudável mas ainda não descobri uma forma de ser de outro jeito. 

Trabalho demais e vivo de menos.

A palavra do momento é esgotamento. O cenário com o qual tenho que lidar não é lá muito agradável: uma profissão mal paga e desvalorizada em todos os sentidos, inclusive culturalmente; a realização da docência sem apoio, ao lado de colegas cansados como eu e às vezes doentes; uma intensa rotina de leituras e estudos mas com poucos espaços para troca. Vamos agregar a isso o trânsito, más condições de trabalho, violência nas escolas, gestões públicas autoritárias... AFFFFFFFF!

Evidente que, mesmo depois de quase 15 anos de magistério, chego a pensar em abandonar o barco para realizar outras paixões. Sim, porque sempre fui uma pessoa de inúmeros amores, há em mim uma força realizadora de trabalho para diversas áreas que adoro.

Idealizo um pequeno restaurante, daqueles bem personalizados para umas 20 pessoas no máximo, com cardápio simples e bem feito, que preze por comidas naturais e orgânicas, saudáveis e saborosas, inspiradas em receitas que aprendi com minha mãe e que foram passadas pelas minhas avós. Seria infinitamente feliz cozinhando e alimentando as pessoas com amor.

Também sonho em cumprir meu caminho como maga do fogo que sou, abrindo um espaço terapêutico para consultas individuais, utilizando as velas sagradas que faço, o conhecimento da escrita mágica e das mandalas do fogo. Um espaço de cura física, emocional e espiritual, através da natureza e de tratamentos que envolvam óleos essenciais, pedra e outros elementos fundamentais para o equilíbrio (assim acredito).

Ou ainda um pequeno café com quitutes que eu mesma prepararia, com espaço para livraria e trocas de livros, um pequeno palco para esquetes, shows e outras atividades culturais aos finais de semana; onde pudesse circular gente bacana que os outros chamam de "esquisitos".

Eu quero trabalhar menos e viver mais.

Por hora estou na escola, a cabeça a mil, o coração cheio de esperanças e as pernas doendo em pé. Para ser sincera, está difícil pensar em trabalho na outra metade da vida. Estou esperando o feriado para ficar quietinha em casa, sem tanto barulho, ao lado da minha família, naquela preguiça de um domingo chuvoso.



Daniela Bonafé

Trabalho

Trabalho é construção, no meu caso, de mim mesma e da minha contribuição para este mundo.

Meu trabalho me desafia e me põe em movimento. A Educação foi o caminho que escolhi para atuar como profissional, aliás é mais do que isso: esta escolha determina o jeito de eu estar no mundo.

As angústias são tantas que desencadeiam desafios a cada instante, sendo a emancipação, a minha inclusive, o maior deles.

O que alivia é encontrar na jornada, pessoas imbuídas dos mesmos sonhos, movidas pelos mesmos ideais, pois trilhamos a caminhada nos fortalecendo.

A única certeza que tenho hoje, após anos trabalhados, é que nunca estaremos prontos e que vamos nos constituindo a cada ato. Defendo a percepção de que o (a) educador (a) precisa manter intactos seus ideais e ter consciência da importância de estar aberto para rever seus caminhos e mudar rumos sempre que for necessário.

A minha projeção para a outra metade da vida é a mesma que tive desde que entrei numa escola pela primeira vez como profissional ao ser recebida com a “profecia” de que todo o meu entusiasmo se devia ao fato de que eu vivia o encantamento do início, que logo passaria e eu faria parte do grupo de educadores (as) mortos em vida.

O meu desejo continua sendo o de me livrar daquela “praga” e manter viva a chama do idealismo, por isso cuido de estar acompanhada de idealistas de carteirinha.


Sempre pensei que se chegasse ao final com o mesmo entusiasmo do começo, teria valido a pena… Este continua sendo o meu desejo…


Sandra Bouças

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O feminino que habita em mim.

Sempre neguei minha feminilidade
Considerava a parte mais fraca de mim.
Ser forte era o contrário de ser feminina.
Não estou falando de batom, meia fina (ainda se usa meia fina?) e cílios postiços (que eu não tenho a menor ideia  como se usa).
Estou falando de falar com o útero, de enfrentar a vida com o peito aberto, com os seios à mostra.
Entendi esta força feminina em dois momentos da minha vida: na maternidade e na defesa do meu trabalho.
Entendendo que minha força estava justamente no que de fêmea existe em mim, passei a rever todos os estereótipos a que somos diariamente submetidos.
Não quero ser o estereótipo. Não quero submeter meus filhos e alunos a eles.
Para esta nova fase da vida quero cultivar o meu feminino, me aproximar das mulheres. Quero entender e valorizar toda esta complexidade feminina.

Quero ser mais Maria. 

Ana Maria Guabiraba

Eu... Mulher

Nascer e crescer numa sociedade patriarcal, convivendo com o enaltecimento de características tidas como masculinas, conhecer heroínas na história do Brasil e do mundo descritas a partir de aspectos masculinos... Sim, por isso são heroínas... São dotadas de uma “admirável masculinidade”.
Ser filha de uma mãe solteira que precisou acumular em sua essência a presença materna e paterna na criação de suas filhas. Nunca fui xodozinho de qualquer figura paterna; vivi em meio a muitas mulheres que sobreviveram e se constituíram assumindo espaços até então reservados para homens. Foram estas as minhas referências...
Fui ocupando esses espaços também desde pequena: sempre envolvida com esportes (projetados para os meninos), tive dificuldades para lidar com os sinais de uma feminilidade que ia despontando: desenvolvimento dos seios, menstruação; nas brincadeiras de casinha, eu não queria ser a mãe, desejava mesmo era o papel da “tia” aventureira e independente que não tinha filhxs.
Até que encontro um companheiro dotado de características tidas como femininas: uma sensibilidade à flor da pele, um posicionamento diante da vida, da família e do trabalho que qualquer pessoa incutiria num estereótipo feminino. Parece até que invertemos os papéis: assumo funções esperadas de um homem e ele, funções esperadas de uma mulher. Chegamos a nos divertir com isso, mas mais uma vez, afastava-me do meu feminino sagrado, seguindo a sina de uma mulher que se projeta numa perspectiva masculina para não correr o risco de ser subjugada.
Até que alcanço a gestação que a este tempo era uma decisão tomada para a vida fazer sentido, era mais do que decisão, era desejo e era condição... Descobrir uma vida dentro de mim me deu a “licença poética” que me permitiu ser MULHER nesta sociedade machista e sexista na perspectiva de que estou liberta para me constituir a partir das características que eu bem entender sem precisar contemplar expectativas.
Amamentar foi curativo para mim: nos primeiros dias, vivenciei a minha própria rejeição aos meus seios através da rejeição que meu filho tinha a eles; ele não aceitava meu peito porque eu não o aceitava e quando fui capaz, com a ajuda de pessoas incríveis como a minha irmã, de aceitar aquela fonte inesgotável do feminino, nos entregamos à amamentação por anos a fio, liberta de todos os grilhões.
A gestação da minha filha promoveu o nascimento da mulher amante que habita em mim, dançar à luz da lua colocou-me na mesma sintonia das mulheres que correm com os lobos, mas foi preciso quebrar a perna para me permitir ser cuidada, protegida e sair do controle, foi a partir deste acontecimento que eu e meu companheiro passamos a transitar livre e felizmente por todas as funções sem identificações com o que seja do masculino ou do feminino. Somos o que for necessário para nos complementar em cada circunstância.
Ao frequentar Círculos de Mulheres, vivi inúmeros conflitos internos ao sentir que se buscavam identificar o feminino sagrado a partir de atributos esperados de mulheres, este conflito tem sua origem na minha perspectiva política pautada na eliminação das projeções de comportamentos femininos e masculinos.
Não tem jeito, não caibo em determinações prévias, em dogmas, em regras e em postulados. Não aceito que me digam como devo ser para me constituir MULHER, quero liberdade para me constituir como ser sem ter que caber nas projeções impostas.
Na outra metade da vida, desejo seguir corajosa para descobrir os detalhes de mim mesma, os caminhos que percorro para coexistir com o que há...


Sandra Bouças

domingo, 22 de outubro de 2017

Florescer


Jeans, camiseta, all star.
A cara lavada.
Cabelo de menino.
Definitivamente sempre passei longe da imagem de uma mulher feminina.

Independente que sou, procurei dar conta sozinha de mim e das coisas, do trabalho e da casa, mais tarde também dos filhos e de todas as responsabilidades que a maternidade envolve, mesmo tendo um companheiro. O lado prático masculino tomou a frente por anos.

Completei esse cenário com a luta feminista, que por um tempo me trouxe a certeza esquisita de que eu não precisava de mimos, carinhos e gentilezas. Cuidei sem ser cuidada, protegi sem ser protegida, olhei sem ser notada, nem por mim mesma.

Ando pela terapia conversando sobre isso. Faz tempo que procuro caminhos de reencontro com meu feminino sagrado e abandonado à própria sorte. A última vez que flertei com ele demoradamente foi quando pari naturalmente meu último filho: foi bom sentir a força da Lua, a sabedoria de uma anciã, a garra de uma amazona e o grito gemido de uma loba.

Arduamente venho trabalhando no resgate da bruxa que me habita, da amante que vive em meu sexo e da princesa que dorme em meu coração. Dói às vezes. O disfarce de uma mulher maravilha e masculina me serviu de proteção por anos a fio, mas ele não cabe mais em minhas perspectivas, ele não me veste tão bem agora.

Tenho contornos mais fluidos e delicados, a alma mais sedenta de espaços amplos e diversos. Eu não aceito mais migalhas. As entranhas do meu útero  e da minha pele latejam a vontade de viver como sou, sem armaduras.

Quero seguir adiante o florescer da mulher que eu descobri ser.


Daniela Bonafé

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Fé

          Desde bem pequena ouvindo que a fé remove montanhas... Como é poderoso ouvir uma afirmação por tanto tempo, comigo funcionou assim: sou uma otimista de carteirinha, tenho fé em Deus, tenho fé na vida, nas possibilidades, e, para mim, a esperança é mesmo sempre a última que morre, por isso nunca presenciei sua morte.
                Eu diria até que tenho mesmo é uma dose de inconformismo quando algo não se concretiza como esperado. O que me faz seguir acreditando que para tudo tem uma forma mais apropriada de ser, leia-se: “de acordo com o que se deseja.”
                Bom, não sei se tais percepções são frutos da juventude, da minha trajetória de vida ou influência dos astros; o fato é que tenho convicção de que, com o passar do tempo e a chegada das experiências de vida, faz-se necessário um cuidado maior no cultivo da fé e esta é a minha projeção para a outra metade da vida: estar em harmonia com a potência da fé em mim... E querem saber? “Boto fé de que vou conseguir”.

Sandra Bouças

Caminhos da Fé

Com fé meu passo é firme e generoso.

Eu acredito em quase tudo e todos nessa terra e fora dela, noutros planos e tempos.
Sou uma pessoa que cultiva o sagrado e o oculto.
Gosto de lendas, mitos, seres encantados, bruxas, elfos, pedras, flores, fadas, santos, orixás, espíritos, madonas, dragões, deuses, forças da natureza, demônios, deusas, pessoas e tudo o mais que existe.

Para mim existe, não apenas na imaginação.

Desde cedo frequentei religiões e templos em busca do sagrado e do divino, do oculto e dos mistérios. Já fui em tudo quanto é lugar de oração e reza, desde o terreiro até uma sinagoga. Minha alma, porque também acredito nela, sempre procurou esses caminhos de surpresas. Estudei magia, bruxaria, livros sagrados, histórias míticas e místicas de muitos povos. Adoro ler sobre tudo o que envolve esse universo desconhecido mas, que para mim, faz todo o sentido. É como se eu encontrasse eco nessas buscas.

Foi através da fé, e de todas as vezes que a coloquei em xeque, que eu me reaproximei daquilo que para mim é um propósito, e ao mesmo tempo, um meio de ser quem sou.
O fogo.

Quando criança (e até hoje) me emocionava ao ver fogos de artifício no Ano Novo ou com as fogueiras de festa junina. Mais tarde, estudei esse elemento com afinco através da Magia das Chamas Sagradas. Hoje domino o fogo na feitura de velas. O fogo me foi apresentado num momento de crise de fé e depois, foi confirmado como caminho a seguir, quando minha fé se tornou inabalável.

Heloísa, minha segunda filha, que fez uma breve mas intensa passagem pela minha vida, transformou minha trajetória. Heloísa me apresentou uma nova fé. A fé no amor incondicional, que liga tudo e todos, vivos e não vivos. Eu creio em tudo o que vai de encontro com a verdade que carrego no coração. Minha verdade é múltipla e diversa, ela dança por todas as religiões e crenças, por todos os lugares que conheço e desconheço, tudo permeado por amor.

Eu desejo, com todo o meu querer, que na outra metade da vida, a minha fé seja capaz de me mover com coragem e determinação para concretizar minha maior tarefa.


Daniela Muelas Bonafé de Andrade


Crise de Fé

Estou em uma crise de fé.
Sempre estou.
E isto não é tranquilo.

Aqueles que creem (muitos dos que creem e não todos) e toda a desigualdade que nos é jogada na cara diariamente me faz duvidar de que existe algo para além do aqui.
Gostaria muito de acreditar mais do que acredito.
Mas isto não passa pelo racional.

Tem que mexer com alguma coisa que está no campo do inexplicável.

Mesmo assim gosto dos encontros que envolvem o sagrado: vou a missas, cultos, giras, meditações.
Gosto de entender e estudar as diferentes religiões.
Peço todos os dias para Nossa Senhora proteger minha família.
Sei que a fé traz conforto e esperança.

Mas vejo que as crenças, e as religiões por consequência, estão envolta por culpa, carmas, medo e preconceito. E aí minha fé balança.


Não, não virei ateísta. Sei que o que está posto não explica tudo, que há muita coisa para além de nós. Mas ainda não consegui encontrar... Talvez minha religião seja a procura. Aceito sugestões. 

Ana Maria Guabiraba

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Não esquecer!!!!!

Estávamos assim
Grudados
Rosto com rosto
Apesar de todos os turbilhões que passaram por nós nos últimos tempos.

De repente o esperado parecia terremoto
E tudo o que construímos estava despedaçado.

Voltar ao que nos fez estar juntos.
Lembrar o que verdadeiramente nos une.
Deixar o tempo passar.

Para que novos planos deixem estes para trás.

Quem sabe logo mais possamos falar das utopias que nos movem.

Por hora só consigo pensar na sobrevivência de agora. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Utopias...

           Amanheci na data combinada por nós para compartilhar nossos textos e não tinha o que oferecer... Não havia saído texto algum, ainda que tivesse pensado muito acerca deste tema que me é tão caro e tão necessário à vida.
              Curioso foi constatarmos que nenhuma de nós havia conseguido escrever e então, decidimos que precisávamos escrever sobre nossas dificuldades em projetar utopia para a outra metade da vida.
              Confesso ter me intrigado com o fato de não conseguir escrever porque desde que entrei em contato com o conceito de utopia, há tempos, decidi que não viveria sem ela, ou sem elas... Gosto de utopias no plural porque concebo precisar de muitas, em muitos aspectos, o que não pode haver é ausência de utopias.
               A minha relação com o conceito sempre foi permeada pela perspectiva da busca, talvez pelo fato de que a primeira definição que me deram foi a de que UTOPIA era algo que não necessariamente alcançávamos, ou seja, podemos passar uma vida movidas por uma utopia e contribuirmos, mas temos grande chances de não vivenciarmos sua plena conquista.
          Pois é, após esta reflexão, fiquei ainda mais preocupada... Afinal, o que havia de errado comigo, é fato que vivemos tempos sociais e políticos sombrios, mas a utopia não deveria estar intacta? À prova de qualquer desmotivação? Não deveria estar focada na plenitude da busca?
   Foi então que percebi que talvez devesse, neste momento, respeitar minha fragilidade e focar na utopia de preservar utopias, é assim que desejo chegar na outra metade da vida... Repleta de Utopias que preservem a minha caminhada e a minha própria essência utópica.



Sandra Bouças

domingo, 8 de outubro de 2017

Das Utopias

Parecia ser uma tema como outro qualquer.
Falar de "utopias" para a outra metade da vida soava bonito e poético.
Achei que escreveria listas delas.
Passei uma semana toda pensando e a única coisa que retumbava na minha cabeça se resumia em apenas duas palavras.
Eu não tinha uma lista, um texto, apenas uma utopia:

REFORMA AGRÁRIA

Porque eu tinha ficado angustiada com uma ocupação que está acontecendo num bairro vizinho ao meu. 
Estão construindo sobre um patamar de prédio que foi abandonado há mais de 14 anos. É a FLM, Frente de Luta por Moradia.
Mulheres, homens e crianças erguem tijolo a tijolo seus lares. 
Todos os dias quando saio do trabalho e passo na frente da ocupação, me dá um nó na garganta.
Eu não quero que eles sejam despejados. São muitos. Estão dando um duro danado para dar teto para os filhos.

REFORMA AGRÁRIA

Depois de 7 dias, eu só tinha essa utopia. E sentia que tudo se resumia a ela. 
Contei às minhas amigas de blog e, para nossa surpresa, ninguém tinha escrito nada! Nenhuma palavrinha! O que será que tinha acontecido com a gente?
Decidimos escrever sobre o porque não conseguimos escrever.
E, para meu desconsolo, eis que isso também foi difícil.
Como é duro lidar com as ausências que nos preenchem a alma!
Ultimamente sinto que tenho poucas esperanças, especialmente nas coisas que mais prezo e acho relevantes.

REFORMA AGRÁRIA

Sim, claro, esta é uma utopia do agora e do depois, é uma de minhas permanências, é algo que não consigo imaginar fora de meus sonhos para nós.
A ocupação do espaço, a divisão do espaço, o espaço, enfim, é algo que vem tomando conta de grande parte de meus pensamentos.
Cada vez mais se instala em mim uma resistência, que luta por espaço de voz, de vez, de ser.
E o que mais?
Será que me restou apenas esse sonho?
Por que?
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Todo o santo dia um murro.
Nas costas, quando falam de mim sem ao menos me conhecerem. 
No estômago, quando batem numa criança e eu fico sabendo. 
Na panturrilha, quando um profissional quer destruir meu trabalho.
No fígado, quando roubam nosso dinheiro e nossa dignidade. 
Na cara, quando fecham uma exposição de Arte. 
No ouvido, quando um aluno berra seus palavrões na aula. 
Na boca, quando sou assediada moralmente. 
No peito, quando me tratam de maneira machista.
No útero, quando uma menina de 13 anos fica grávida.
No alma, quando colocam fogo numa creche. 
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É muito murro. De tanto baterem fiquei sem utopias.
Espero que seja só por uma semana.


Daniela Bonafé