segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Eu... Mulher

Nascer e crescer numa sociedade patriarcal, convivendo com o enaltecimento de características tidas como masculinas, conhecer heroínas na história do Brasil e do mundo descritas a partir de aspectos masculinos... Sim, por isso são heroínas... São dotadas de uma “admirável masculinidade”.
Ser filha de uma mãe solteira que precisou acumular em sua essência a presença materna e paterna na criação de suas filhas. Nunca fui xodozinho de qualquer figura paterna; vivi em meio a muitas mulheres que sobreviveram e se constituíram assumindo espaços até então reservados para homens. Foram estas as minhas referências...
Fui ocupando esses espaços também desde pequena: sempre envolvida com esportes (projetados para os meninos), tive dificuldades para lidar com os sinais de uma feminilidade que ia despontando: desenvolvimento dos seios, menstruação; nas brincadeiras de casinha, eu não queria ser a mãe, desejava mesmo era o papel da “tia” aventureira e independente que não tinha filhxs.
Até que encontro um companheiro dotado de características tidas como femininas: uma sensibilidade à flor da pele, um posicionamento diante da vida, da família e do trabalho que qualquer pessoa incutiria num estereótipo feminino. Parece até que invertemos os papéis: assumo funções esperadas de um homem e ele, funções esperadas de uma mulher. Chegamos a nos divertir com isso, mas mais uma vez, afastava-me do meu feminino sagrado, seguindo a sina de uma mulher que se projeta numa perspectiva masculina para não correr o risco de ser subjugada.
Até que alcanço a gestação que a este tempo era uma decisão tomada para a vida fazer sentido, era mais do que decisão, era desejo e era condição... Descobrir uma vida dentro de mim me deu a “licença poética” que me permitiu ser MULHER nesta sociedade machista e sexista na perspectiva de que estou liberta para me constituir a partir das características que eu bem entender sem precisar contemplar expectativas.
Amamentar foi curativo para mim: nos primeiros dias, vivenciei a minha própria rejeição aos meus seios através da rejeição que meu filho tinha a eles; ele não aceitava meu peito porque eu não o aceitava e quando fui capaz, com a ajuda de pessoas incríveis como a minha irmã, de aceitar aquela fonte inesgotável do feminino, nos entregamos à amamentação por anos a fio, liberta de todos os grilhões.
A gestação da minha filha promoveu o nascimento da mulher amante que habita em mim, dançar à luz da lua colocou-me na mesma sintonia das mulheres que correm com os lobos, mas foi preciso quebrar a perna para me permitir ser cuidada, protegida e sair do controle, foi a partir deste acontecimento que eu e meu companheiro passamos a transitar livre e felizmente por todas as funções sem identificações com o que seja do masculino ou do feminino. Somos o que for necessário para nos complementar em cada circunstância.
Ao frequentar Círculos de Mulheres, vivi inúmeros conflitos internos ao sentir que se buscavam identificar o feminino sagrado a partir de atributos esperados de mulheres, este conflito tem sua origem na minha perspectiva política pautada na eliminação das projeções de comportamentos femininos e masculinos.
Não tem jeito, não caibo em determinações prévias, em dogmas, em regras e em postulados. Não aceito que me digam como devo ser para me constituir MULHER, quero liberdade para me constituir como ser sem ter que caber nas projeções impostas.
Na outra metade da vida, desejo seguir corajosa para descobrir os detalhes de mim mesma, os caminhos que percorro para coexistir com o que há...


Sandra Bouças

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