Nascer e
crescer numa sociedade patriarcal, convivendo com o enaltecimento de
características tidas como masculinas, conhecer heroínas na história do Brasil
e do mundo descritas a partir de aspectos masculinos... Sim, por isso são
heroínas... São dotadas de uma “admirável masculinidade”.
Ser filha de
uma mãe solteira que precisou acumular em sua essência a presença materna e
paterna na criação de suas filhas. Nunca fui xodozinho de qualquer figura
paterna; vivi em meio a muitas mulheres que sobreviveram e se constituíram
assumindo espaços até então reservados para homens. Foram estas as minhas
referências...
Fui ocupando
esses espaços também desde pequena: sempre envolvida com esportes (projetados
para os meninos), tive dificuldades para lidar com os sinais de uma
feminilidade que ia despontando: desenvolvimento dos seios, menstruação; nas
brincadeiras de casinha, eu não queria ser a mãe, desejava mesmo era o papel da
“tia” aventureira e independente que não tinha filhxs.
Até que
encontro um companheiro dotado de características tidas como femininas: uma
sensibilidade à flor da pele, um posicionamento diante da vida, da família e do
trabalho que qualquer pessoa incutiria num estereótipo feminino. Parece até que
invertemos os papéis: assumo funções esperadas de um homem e ele, funções
esperadas de uma mulher. Chegamos a nos divertir com isso, mas mais uma vez,
afastava-me do meu feminino sagrado, seguindo a sina de uma mulher que se
projeta numa perspectiva masculina para não correr o risco de ser subjugada.
Até que
alcanço a gestação que a este tempo era uma decisão tomada para a vida fazer
sentido, era mais do que decisão, era desejo e era condição... Descobrir uma
vida dentro de mim me deu a “licença poética” que me permitiu ser MULHER nesta
sociedade machista e sexista na perspectiva de que estou liberta para me
constituir a partir das características que eu bem entender sem precisar
contemplar expectativas.
Amamentar foi
curativo para mim: nos primeiros dias, vivenciei a minha própria rejeição aos
meus seios através da rejeição que meu filho tinha a eles; ele não aceitava meu
peito porque eu não o aceitava e quando fui capaz, com a ajuda de pessoas
incríveis como a minha irmã, de aceitar aquela fonte inesgotável do feminino, nos
entregamos à amamentação por anos a fio, liberta de todos os grilhões.
A gestação da
minha filha promoveu o nascimento da mulher amante que habita em mim, dançar à
luz da lua colocou-me na mesma sintonia das mulheres que correm com os lobos,
mas foi preciso quebrar a perna para me permitir ser cuidada, protegida e sair
do controle, foi a partir deste acontecimento que eu e meu companheiro passamos
a transitar livre e felizmente por todas as funções sem identificações com o
que seja do masculino ou do feminino. Somos o que for necessário para nos
complementar em cada circunstância.
Ao frequentar
Círculos de Mulheres, vivi inúmeros conflitos internos ao sentir que se
buscavam identificar o feminino sagrado a partir de atributos esperados de mulheres,
este conflito tem sua origem na minha perspectiva política pautada na
eliminação das projeções de comportamentos femininos e masculinos.
Não tem jeito,
não caibo em determinações prévias, em dogmas, em regras e em postulados. Não
aceito que me digam como devo ser para me constituir MULHER, quero liberdade
para me constituir como ser sem ter que caber nas projeções impostas.
Na outra
metade da vida, desejo seguir corajosa para descobrir os detalhes de mim mesma,
os caminhos que percorro para coexistir com o que há...
Sandra Bouças
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