segunda-feira, 9 de abril de 2018

Lula Livre

Lembro-me bem daquele 2002.
Estava com minha irmã, minhas primas e meu marido - na época ainda namorado - na avenida Paulista.
Chorávamos muito com o discurso de Lula.
Estávamos emocionados porque era a vez do povo e da classe trabalhadora, finalmente a nossa vez!
Eu era jovem, 21 anos e o peito cheio de esperanças.

2018.
Envelheci um pouco mas ainda me sinto jovem e com vigor.
Continuo chorando com o discurso de Lula e apesar de sua prisão, me renovei de esperanças.
Minha voz, mesmo rouca nas salas de aula da periferia, continua vibrando a força e potência da classe trabalhadora desse país.
E através dela eu incessantemente brado contra as injustiças e ajudo no levante pela garantia de direitos.
Porque as ideias de Lula vivem também no meu coração e através dele fluem.

Que possamos aprender a resistir cada vez melhor aos golpes.
Que não se apague a estrela que nos move e que representa cada um nesse Brasil e que saibamos brilhar, como Lula fez, ofuscando o ódio de classes que alimenta a muitos.
Mobilizemo-nos.
O tempo urge.
Amanhã é outro dia de outono e o sol não é igual para todos.
Lula livre!


Daniela Bonafé

domingo, 8 de abril de 2018

Carta ao Lula, ou A Esperança vai vencer o medo, ou Não poderão aprisionar os nossos sonhos.


Lula.

Escrevo esta carta por meio de um blog.
É um blog que escrevo com algumas amigas.
Falamos sobre nossas dúvidas, sonhos e esperanças para a segunda metade da vida.
E em comum temos esta ânsia de transformar a sociedade.
Assim como você. Assim como minha mãe.

Não tem como falar de você sem falar da minha mãe.
Vocês construíram uma história de luta e conquistas improváveis.  
De um sucesso que poderia ser escrito no campo da meritocracia.
Ou das conquistas individuais.
Mas que pela força que impuseram
Chegaram a muitos, muitos mesmo. 

Minha história corre paralela, cruza em alguns momentos e se afasta em outros.

Lembro perfeitamente a primeira vez que te vi.
Ainda era muito criança,
Uma noite de autógrafos.
Uma menina magrela.
Um silêncio ao me aproximar.
Um olho no olho inesquecível.
E uma volta para casa abraçada no livro.
Minha mãe, a uma distância segura, observava.

Após muitas manifestações juntas,
Campanhas,
Avanços e retrocessos,
Comemoramos sua primeira vitória com toda a força da nossa esperança.
Choramos pela alegria que estava por vir.
Cantamos e saímos daquela avenida roucas e completas.
O medo foi derrotado.

As contradições e crises tomaram conta do nosso governo e da nossa vida.
Não me orgulho muito de algumas das nossas escolhas,
Nem do meu ostracismo.
Ou da busca pela minha tranquilidade individual.
Mas nossa história (como a do nosso país) não se constrói na linearidade.
Compreender nossos limites e avançar nas nossas possibilidades,
Nos permite chegar onde precisamos.
Ou onde precisam de nós.

O golpe trouxe um turbilhão.
E depois nos silenciou.
Eu, mãe e irmão estávamos ali, embaixo do caminhão,
Ouvimos atentos.
Continuamos na nossa tarefa.
O um a um.
Os encontros diários.
As conversas tranquilas (ou não).
A indignação que não nos deixa.

Construímos juntas um modo de lutar.
Discreto.
Atrás dos muros nas bocas de urna.
No meio da multidão nas manifestações.
Nas conversas diárias nos espaços que ocupamos. 
No pequeno,
No dia-a-dia,
Nos bastidores.

Mas agora...
Agora...
Estamos paralisadas.
Silenciadas.
Nos restabelecendo.

Por que muito em breve,
Em breve mesmo,
Quando o coração já não estiver sangrando tanto.
Estaremos a frente do front.
Doando mais do que imaginávamos ter.
Do nosso modo.
Discreto.
Constante.
Sabendo que o pequeno,
O cada um,
O um por um,
Se unido,
Junto,
Na mesma passada,
Pode construir uma sociedade mais justa e igualitária.
Uma sociedade mais Lula.

Para a outra metade da vida quero ter um pouco da coragem de vocês dois.

Ana Maria Guabiraba



Lula


Lula, a primeira vez que você foi eleito, eu já estava na sala de aula como professora de História e não consigo me esquecer da imensa alegria e otimismo que tomava conta de mim ao celebrar sua vitória como um acontecimento memorável e histórico: era chegada a hora de um rompimento com a política representada pela oligarquia, herança de uma nação colonizada e saqueada.

Não era a sua vez, era a nossa: era a vez daquelxs estudantes, da minha e da maioria esmagadora da população brasileira de sairmos da condição de espectadorxs da História para nos tornarmos protagonistas de nossos rumos. Fui testemunha do acesso às universidades dxs estudantes que acompanhei, testemunhei e bradei nos lugares e nos encontros o fim da condição de miseráveis de tantos e tantas, testemunhei a força de muita luta e conquista de direitos até então relegados à invisibilidade. Mas fui também testemunha de um golpe contra a democracia, contra o que estava em construção. Sou testemunha do fascismo que se instala em cada esquina por onde eu passo, em cada ser que abre mão da sua autoria neste mundo.

Sua condenação apesar de sua inocência também entra para a História manchando de sangue a nossa integridade, o nosso direito à liberdade, evidenciando a nossa sensação de impotência. Não vivi a ditadura militar em idade que me permitisse compreensão, mas imagino o sentimento de impotência diante das atrocidades cometidas. Estamos reféns novamente de um recalque selvagem, capaz de tudo para impedir a continuidade do que se iniciou com a entrada do PT na presidência da república. Pois bem, como educadora, sinto-me responsável também por tudo isso, talvez por ter sido tão ingênua a ponto de não presumir que este dia de opressão voltaria a existir.

E agora? O que me resta? Fazer o que fazemos sempre na Educação... Avaliar, refletir por quais rumos trilhar, alterar caminhos que não frutificaram e recomeçar... Quase posso sentir dentro de mim a desolação de uma nação inteira. Estou devastada, considerada culpada por uma parcela da sociedade por acreditar na sua inocência, mas livre como você para atuar de acordo com a constituição de mim mesma. Não abro mão de tomar decisões e de uma coisa estou certa, você foi condenado porque tomou a decisão de se posicionar de um lado da História, estamos juntxs, optamos pelo mesmo lado e onde eu estiver, serei sua presença através de meus pensamentos, minha voz e minha convicção de que não há outra forma de estar neste mundo a não ser na perspectiva da libertação e da emancipação de um povo.

Pela primeira vez diante de falas infundadas por parte de desconhecidxs, resolvi intervir. Era o dono de um comércio e ele conseguiu, em pouquíssimos minutos, deixar escapar de sua boca, as maiores aberrações. Ia falar dxs professorxs e fui logo dizendo que eu era uma... Neste momento, percebi que participava em silêncio daquela conversa um jovem, acredito que ainda esteja no Ensino Médio, era o funcionário daquele comércio. Eu busquei finalizar aquele diálogo sem futuro concluindo que era trabalhadora e que, portanto, meu voto era do PT. O garoto sorriu e disse: “Eu sabia, ela é professora, vota no PT. Meu voto também é do PT”. Era o voto de uma professora que legitimava o dele e que transmitia segurança para que ele se posicionasse diante de seu patrão.

Minha existência se renovou em esperança, voltei para casa certa de que em muitos, mas muitos cantinhos deste país, há professorxs cuidando da nossa História. Só o que posso desejar é alcançar a sua resiliência Lula... Assim conseguirei continuar na luta...

Sandra Bouças

sábado, 7 de abril de 2018

Os sonhos não podem ser aprisionados


Era quinta-feira, cheguei em casa após um longo dia de trabalho iniciado às 5h30 da manhã. Meu companheiro carregava um semblante muito triste. Perguntou se eu tinha visto as notícias e logo me informou que a prisão de Lula havia sido decretada. Alguns amigos nossos já estavam no Sindicato dos Bancários e mandavam notícias. 
Chegamos lá no fim da tarde de sexta-feira e lá permanecemos até o fim da noite. Havia gente de todos os partidos, de movimentos sociais e eram muitas as sensações misturadas, mas a principal era a de injustiça frente a um processo imparcial e desigual e que precisávamos estar ali pra mostrar a nossa indignação. Alguns permaneceram acampados. Nós retornamos para casa com o carro lotado de pessoas queridas e fomos ali naquele percurso colocando as nossas impressões sobre o momento histórico vivido.

Dormimos um pouco e acordamos cedo para estar na missa em homenagem a Marisa Letícia, celebrada por Dom AngÉlico. Participei da Pastoral da Juventude e essa Igreja comprometida com os mais pobres foi uma escola, hoje não tenho nenhuma religião, mas a celebração foi um momento muito bonito. Pude me reencontrar com a Igreja que já fez algum sentido pra mim. Oração de São Francisco, Carta de São Paulo aos Coríntios, cada música delicadamente escolhida (por Lula). Moradores de rua, personalidades, trabalhadores, mulheres, homens, crianças. Ninguém tira da gente essas experiências fraternas e de luta. Nehuma construção midiática pode arrancar essas coisas que plantamos no coração.

Ao contrário de grande parte dos meus amigos, meu processo de conscientização demorou um pouco mais para acontecer. Na infância o meu entendimento político foi distorcido pela minha formação familiar.Na juventude é que compreendi o que era a luta de classes e qual era o meu papel nesse mundo. Isso se deu pelas experiências que vivi, pelos amigos, pelas relações de trabalho, pela escola. E foi esse entendimento que me libertou. Por isso, nunca perco a oportunidade de dialogar, porque eu sei que esse processo acontece com outras pessoas o tempo todo.

Não vou dizer pra ninguém que pense como eu, que acredite nas mesmas coisas, porque tudo o que eu penso hoje é fruto de experiências muito profundas. Mas acho que um bom começo é não reproduzir os discursos da grande mídia, do pastor, do padre, etc. Não falar sem pesquisar, sem se aprofundar nos assuntos. Se questionar o tempo inteiro, rever as próprias ideias, não se fechar em discursos de ódio. O ódio impede a gente de pensar.

Li muita coisa sobre o dia de hoje. Coisas de gente que viu com os mesmos olhos que eu. Coisas absurdas escritas e faladas pela imprensa. E também por fascistas, porque nem todo mundo é desavisado, tem gente que é ruim e perverso mesmo (e pregar a morte de alguém não é liberdade de expressão). E o que eu senti, estando lá no Sindicato ontem e hoje, foi uma vibração maravilhosa de homens e mulheres que estavam indignados com o tratamento injusto e desigual dado ao ex-presidente Lula. Homens e mulheres que estavam dispostos a resistir fisicamente. Que continuarão resistindo e lutando por uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais fraterna.

Veio a prisão de Lula. Depois de cessar o choro, de indignação e injustiça, veio a disposição ainda maior para trabalhar e estudar com afinco. A vitória virá das bases, temos uma geração pra disputar. Os sonhos não podem ser aprisionados. A responsabilidade é de cada um de nós. E eu quero continuar me incluindo nesse time, dos que se indignam e lutam.

Lívia Freitas