Era quinta-feira, cheguei em casa após um longo dia de trabalho iniciado às 5h30 da manhã. Meu companheiro carregava um semblante muito triste. Perguntou se eu tinha visto as notícias e logo me informou que a prisão de Lula havia sido decretada. Alguns amigos nossos já estavam no Sindicato dos Bancários e mandavam notícias.
Chegamos lá no fim da tarde de sexta-feira e lá permanecemos até o fim da noite. Havia gente de todos os partidos, de movimentos sociais e eram muitas as sensações misturadas, mas a principal era a de injustiça frente a um processo imparcial e desigual e que precisávamos estar ali pra mostrar a nossa indignação. Alguns permaneceram acampados. Nós retornamos para casa com o carro lotado de pessoas queridas e fomos ali naquele percurso colocando as nossas impressões sobre o momento histórico vivido.
Dormimos um pouco e acordamos cedo para estar na missa em homenagem a Marisa Letícia, celebrada por Dom AngÉlico. Participei da Pastoral da Juventude e essa Igreja comprometida com os mais pobres foi uma escola, hoje não tenho nenhuma religião, mas a celebração foi um momento muito bonito. Pude me reencontrar com a Igreja que já fez algum sentido pra mim. Oração de São Francisco, Carta de São Paulo aos Coríntios, cada música delicadamente escolhida (por Lula). Moradores de rua, personalidades, trabalhadores, mulheres, homens, crianças. Ninguém tira da gente essas experiências fraternas e de luta. Nehuma construção midiática pode arrancar essas coisas que plantamos no coração.
Ao contrário de grande parte dos meus amigos, meu processo de conscientização demorou um pouco mais para acontecer. Na infância o meu entendimento político foi distorcido pela minha formação familiar.Na juventude é que compreendi o que era a luta de classes e qual era o meu papel nesse mundo. Isso se deu pelas experiências que vivi, pelos amigos, pelas relações de trabalho, pela escola. E foi esse entendimento que me libertou. Por isso, nunca perco a oportunidade de dialogar, porque eu sei que esse processo acontece com outras pessoas o tempo todo.
Não vou dizer pra ninguém que pense como eu, que acredite nas mesmas coisas, porque tudo o que eu penso hoje é fruto de experiências muito profundas. Mas acho que um bom começo é não reproduzir os discursos da grande mídia, do pastor, do padre, etc. Não falar sem pesquisar, sem se aprofundar nos assuntos. Se questionar o tempo inteiro, rever as próprias ideias, não se fechar em discursos de ódio. O ódio impede a gente de pensar.
Li muita coisa sobre o dia de hoje. Coisas de gente que viu com os mesmos olhos que eu. Coisas absurdas escritas e faladas pela imprensa. E também por fascistas, porque nem todo mundo é desavisado, tem gente que é ruim e perverso mesmo (e pregar a morte de alguém não é liberdade de expressão). E o que eu senti, estando lá no Sindicato ontem e hoje, foi uma vibração maravilhosa de homens e mulheres que estavam indignados com o tratamento injusto e desigual dado ao ex-presidente Lula. Homens e mulheres que estavam dispostos a resistir fisicamente. Que continuarão resistindo e lutando por uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais fraterna.
Veio a prisão de Lula. Depois de cessar o choro, de indignação e injustiça, veio a disposição ainda maior para trabalhar e estudar com afinco. A vitória virá das bases, temos uma geração pra disputar. Os sonhos não podem ser aprisionados. A responsabilidade é de cada um de nós. E eu quero continuar me incluindo nesse time, dos que se indignam e lutam.
Lívia Freitas
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