sábado, 30 de dezembro de 2017

Aqueles que Escolhi Amar

Sempre poucos.
Presentes.
Presenças de amor.
Mãos dadas:
Bem querer
De graça
E de peito aberto.
Há dor e choro.
É madrugada
Mas não há hora
Para determinar
Amor assim.
Partilha.
Um coração
Que toca outro.
Irmãos.
Amigos.
Repartidos:
Nos brinquedos,
Nos doces,
Nos quartos...
Belém, Belém,
Nunca mais tô de bem.
Mentiras.
Gracinhas.
Implicâncias.
Crianças.
Amigos.
Imagem:
A alma ampla
Cabe num jeans.
Toda a beleza
De ser quem se é
Até quando
A malha está puída.
Danem-se os bens!
Riqueza de espírito!
E vai prá puta que pariu!
Jovens.
Amigos.
Pontos de vista:
Nem sempre ou
Quase nunca
Se entrelaçam.
Tudo bem.
Vão juntos.
Ou não.
Incontáveis erros.
Também acertos.
São gente e ponto.
Nada de heróis.
Nenhum santo.
Ainda bem.
Insistência
Na felicidade
Até quando
Descarrilhados.
Maduros.
Amigos.
Ondas:
Vão e vêm como o mar.
Deixo que sigam
E que voltem
(se quiserem).
Sem reservas.
Sem melindres.
Acolho toda vez.
São risadas e cores.
São preocupações
E até rezo.
O tempo é curto.
Estar com é bom.
Curtimos.
Conselhos.
Parâmetros.
Nunca espelhos.
Múltiplos e plurais.
Diversos.
Discussões.
Fogo na conversa.
Mas queridos, amados.
Luzes na escuridão.
Sinto falta
Nas ausências
E nas distâncias.
Agora.
Meus.
Amigos.
Planos e sonhos:
Histórias e chá,
Memórias e fé.
Esquecimentos.
Permanências.
Reminiscências.
Saúde:
Para goles,
Para danças
E mais encontros.
Vida longa!
Até breve
Na visita
E na lembrança.
O mundo será nosso
E amanhecerá bonito!
Velhos.
Amigos.
Daniela Bonafé

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Solstícios e Equinócios.

Vivi muitos ritos de passagem.

Alguns socialmente. Compartilhando com os meus.

Outros solitários, internos, só para mim.

Fui uma católica muito praticante e vivi todos os ritos da religião com muita intensidade e energia: fui batizada em Aparecida do Norte cumprindo uma promessa de minha mãe, fiz primeira eucaristia e celebrei muito esta etapa, me crismei em uma linda cerimônia, encontros de jovens que envolveram toda a minha família (precisamos falar sobre isso em algum momento, rsrsrsrsrs).

Para mim após cada rito a vida se transformava de alguma maneira: eu, o universo, quem estava ao meu redor.

Os ritos, neste sentido, são momentos chave que são capazes de alterar o espaço e o tempo, toda nossa percepção. As mudança se tornam palpáveis. Morar com o meu marido, a concepção, o nascimento e a maternidade. Mas também quando deixamos de ser netos, sobrinhos, filhos e pais. São ritos pessoais e sociais que nos modificam para sempre. A espessura do ar, o som do ambiente, a passagem do tempo... tudo parece diferente. Consigo me recordar de cada segundo destes acontecimentos em uma projeção muito diferente das captadas pelas filmadoras.

No entanto, ao mesmo tempo que vejo a importância destes ritos para me tornar quem sou, estou me afastando de todas as formas ritualísticas da sociedade capitalista em que estamos inseridos. Não quero mais me obrigar a estar com as pessoas porque alguém decidiu que hoje é dia de se fazer isso ou aquilo. Dividir minhas frustrações e conquistas com o calendário estabelecido. Comprar, comer, viver coisas que poucos se lembram da origem.

A tarefa para a Outra Metade da Vida é buscar momentos chave que façam sentido para mim e minha família. Celebrar o solstício e o equinócio (como faz um amigo), programar anualmente um banho de cachoeira familiar, pular ondas em todos os nossos aniversários, escrever nossos desejos de ser e não de ter.

Saber reconhecer estes momentos que precisamos fechar os olhos, respirar devagar e gravar para sempre na memória: porque preenchem ou sangram o nosso coração.

Ana Maria Guabiraba.  

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Sou passageira e sou também passagem

Ritualizar: marcar, pontuar, compreender com o coração, findar um tempo para iniciar outro, interagir com o universo, rememoriar, resgatar a ancestralidade, criar laços e raízes, fazer planos, manter vínculos, (re)inventar histórias.

São tantas passagens dentro de uma só que, para mim, rituais trazem calma e calor, coragem e contentamento. Com os ritos de passagem eu lembro quem sou e minha identidade se reafirma, se reanima e então eu sigo confiante.

Procuro trazer aos meus filhos inúmeros rituais para que vejam magia na rotina e beleza nas pequenas aventuras da vida.

Comemoramos aniversários, dentes que caem, Natal, a chegada do ano novo, Páscoa, nascimentos, festas juninas, conquistas esportivas, a chegada da primavera, as luas cheias... Lavamos pedras, fazemos velas e biscoitos, arrumamos e decoramos a casa, criamos cantinhos e histórias, costuramos guirlandas, cantamos orações que inventamos, aprontamos poesias...

Em casa chegam anjos e fadas, duendes e elfos, Iemanjá e Oxum, coelhinho e Papai Noel, São Micael e Nossa Senhora, sacis e mago do fogo... Para cada rito um ser, com qualidades e defeitos, para nos inspirarmos. E se o rito é pessoal, como um novo ciclo de trabalho ou casa nova para morar, lá vamos nós! Hora de inventarmos histórias e seres para acompanharem estas passagens e darem a elas um colorido mágico.

Também vou a velórios e enterros das pessoas especiais para mim e que estão realizando suas extraordinárias passagens para a memória e saudade. Presenciar esses ritos me lembra de minha própria efemeridade e da importância de manter-me consciente disso, para que eu desfrute de cada experiência (sendo boa ou ruim) com plenitude.

Quero continuar fazendo isso, mesmo que de repente, no curso do crescimento de meus filhos, já não acreditem mais nas fantasias e na relevância de ritualizar a vida.

Eu acredito em rituais, em tudo o que é mágico e encantado, mesmo quando o mundo todo diz que nada disse existe. Sou daquelas que não duvida da existência de nenhum ser e nem das forças envolvidas em cada passagem, do visível e do invisível que cabe em cada transição para outro lugar de ser e estar no mundo.

Ser passagem para outras passagens - duas em curso e duas completadas, pelo menos nesse plano - trouxe-me a magnitude de amar incondicionalmente mas com a fluidez do desprendimento. Ritualizar os nascimentos e mortes de meus filhos trouxeram paz para o ventre e para o pensamento.

Sem os ritos e rituais de passagem eu já estaria bem morta e enterrada, com os pontos entregues numa bandeja de desesperança. Sou feita da intensidade de cada passagem que vivi e que decidi marcar no meu íntimo e para sempre. Faço isso para eu nunca me esquecer de mim e para que minha história esteja ao meu alcance.

Eu sou passageira e sou também passagem.


Daniela Bonafé. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Ritos de passagem

Nascer, morrer... Ritos de passagem assim como acordar e dormir... “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou...”
                Ritos me encantam justamente por ter a sensação de que passo de uma circunstância, posição a outra. Transmutação... Marca a finalização de um ciclo e início de outro, momento de reafirmar propósitos, recarregar energias.
                Aniversários, ciclos mais longos, inícios de semanas, meses e anos, chegada a um novo lugar: para morar, trabalhar, viver, início de etapas, primeiras vezes nas experiências da vida, início e finalização de projetos vividos com entusiasmo, inícios e finais de cada estação do ano, decisão de viver junto de alguém amadx, casamento, nascimento dxs filhxs, dente que cai, dente que nasce... Para cada acontecimento um rito, uma preparação, uma nova consciência, a oportunidade de um renascer.
                Renasço a cada amanhecer, a cada nova oportunidade de viver de maneira diferente do que tenho vivido. A cada finalização/ início de percurso, passo por desconstrução e reconstrução do que sou/ desejo ser, renovo-me e me reformulo.
                Diante de cada momento destes, nem sempre há uma sequência de ações específicas que determinam concretamente um ritual; mas há sempre a intencionalidade, a disposição interna de viver este momento de uma forma única e especial. Fica sempre uma lembrança, a retrospectiva vivenciada mentalmente, as análises pessoais, a reprogramação dos objetivos, as superações necessárias para seguir adiante.
                Há anos, ao contar a um grande amigo (que aliás nem sei por onde anda) que os meus banhos de sábado eram mais especiais porque era o momento em que reservava para pensar na semana que foi e na semana que iniciava, momento para reorganização de ideias, sentimentos e ações, além dos cuidados mais específicos com o meu próprio corpo, ouvi que eu era a pessoa mais ritualista que ele conhecia. Nunca mais me esqueci daquela observação e confesso admitir que toda transição me fascina e me comove ainda mais perceber que para alguém ficou evidente que, para mim, nada é trivial.
                Este texto, por exemplo, é um rito para mim... Ele me possibilitou, além de pensar sobre a importância dos ritos em minha vida, percorrer mentalmente caminhos que segui até a escrita deste último texto do ano dentro deste projeto de escrita de quatro mulheres que se propuseram a refletir e a compartilhar seus sentimentos, suas posições e concepções de vida.
Este texto marca a conclusão de uma etapa da vida e uma versão de mim mesma, momento em que me reorganizo e me recupero do que não fui... Rito tem este sentido para mim: oportunidade de conexão comigo mesma e minha própria reinvenção.

                Há mais de 20 anos, alguém no mundo já me identificava aos ritos (relato acima da observação de um amigo); desejo para a outra metade da vida, perseverar na relação que estabeleço com os ritos de passagem da forma como tenho vivenciado até o momento porque me dão pistas da minha vivacidade. Aliás, o que não é este projeto de escrita para a outra metade da vida, senão um rito de passagem para uma fase tão especial das nossas vidas? Que deliciosa descoberta!

Sandra Bouças. 

Um olhar para vida.

Gosto muito dessa época do ano. Essa ilusão do calendário de um ano que se fecha e outro que se abre, cheio de novas possibilidades. A sensação de que podemos corrigir os erros, encerrar ciclos e traçar novos planos.

O final do ano tem para mim gosto de infância. Família reunida, dormir tarde, conversas intermináveis, risos, brincadeiras, comidas especiais, presentinhos. Vejo ao longe, uma menina de quatro anos, abrindo com alegria seus presentes de Natal. Mais tarde me lembro aos seis ganhando uma mochila especial para ir para a 1ª série. Já estou com 16 anos e conto a minha prima sobre um amor, que como toda adolescente apaixonada achava que seria pra sempre.  De repente tenho 27 e estou feliz e com os seios latejantes, segurando minha filha no seu quinto dia de vida. Agora tenho 35 anos e estamos avós, avô, tios, tias, mães, pais, crianças e nossa querida canina em mais um final de ano, rindo das nossas misérias e celebrando nossas conquistas e percebendo o quanto, apesar das nossas diferenças, há muito mais coisas que nos aproximam e que somos mais felizes juntos.

Este é o momento propício também para revistar as perguntas clássicas da vida: De onde viemos? Para onde vamos? Existe quem responda a essas perguntas com as certezas da fé. Eu não as tenho. O que sei é de uma história de migrantes cearenses e outra de imigrantes portugueses que buscavam melhores condições de vida, que tinham planos para o futuro e tiveram filhos e em algum ponto da história, em um sete de setembro, no cinema, assistindo o Farol do Fim do Mundo, porque Romeu e Julieta estava lotado, um homem e uma mulher selaram um beijo e, sem imaginar, uma vida. Desse encontro, saíram quatro mulheres.  Uma tornou-se Lívia, por culpa de Jorge Amado. Lívia não encontrou Guma, mas encontrou Marcos. Não era sete de setembro, nem foram ao cinema. A história deles começou (ou recomeçou) no teatro, com Plínio Marcos. E eles sonharam, fizeram planos e se amaram tanto que transbordaram em Anita e Cecília (porque a vida é feita de luta, mas também de música e poesia). E eles, como todos os outros, também viveram angústias e crises, mas se reencontraram para continuar essa história, que não é feita de certezas, nem é linear, é só mesmo amarrada por uma vontade imensa de seguir lado a lado e ser muito mais que dois.

E se não podemos responder de onde viemos ou para onde vamos, ao menos podemos responder o que queremos fazer com essa vida, que está aqui e que é agora.


Lívia Freitas

Navegar é preciso

Das primeiras viagens com a família, as que fiz com os amigos, sozinha, em casal, com as filhas, não há viagem da qual eu me arrependa. Viajar sempre foi uma forma de me encontrar. Ao olhar o novo, conseguir perceber em mim o que me aproxima ou me distancia daquela realidade. Testar também a tolerância, a paciência, a criatividade e a capacidade de superar desafios.

A melhor forma de se conhecer as pessoas é através de uma viagem. Foi assim que me apaixonei pelo meu marido; que rompemos com um casal de amigos; que outros amigos se tornaram indispensáveis; que aprendemos a estabelecer as parcerias corretas para cada roteiro.

Sintoma de que as coisas vão bem na minha vida é ter planos de viagem. Pode ser perto, pode ser longe. Preciso sentir aquele vento batendo no rosto; aquele frio na barriga do avião que decola; olhar o horizonte sem fim; localizar-me geograficamente em uma nova cidade; sintonizar os ouvidos em um novo idioma; treinar o paladar para um novo sabor; visualizar uma paisagem pela primeira vez.

Viajar, para mim, é viver. Todas as vezes que vamos não há a certeza da volta. Vamos cheios de expectativas e trazemos novas experiências. Quando o carro retorna ao seu destino; quando o avião pousa, há aquela nostalgia de tudo o que se foi e ao mesmo tempo a alegria do retorno. Aquela sensação maravilhosa de voltar para casa. Estamos vivos, com novas histórias e mais energia para enfrentar o cotidiano.

Que essas sensações estejam presentes nos próximos anos. Que as minhas filhas sejam herdeiras dessa paixão pela estrada. Que desfrutem dessas experiências e possam proporcionar a si mesmas e as futuras gerações (se for do seu desejo) essas vivências.

Navegar é preciso.


Lívia Freitas

Viagens...

Viajar, para mim, sempre foi rica oportunidade de sair do lugar... Sim, literalmente, mas também simbolicamente. Durante a minha infância, íamos muito para a casa de parentes no litoral, interior de São Paulo e até outros Estados (poucos). Era um acontecimento formidável e eu me preparava para vivenciar esta experiência da forma mais plena possível: esperava todxs estarem prontxs para então ir ao banheiro pela última vez, afinal, nada poderia me incomodar durante o percurso, pois seria um encontro comigo mesma... Meu lugar era na janela e entrava numa espécie de transe formidável: apreciar a paisagem e pensar na vida, ou melhor, sonhar acordada.
Na adolescência, vivenciei experiências de viagens “sem lenço, nem documento” na busca por mim mesma (sempre) e por lugares onde eu coubesse juntamente com meus sonhos. Em minhas bagagens, meus impulsos e objetos que me identificavam... Em muitos casos, tais viagens possibilitaram reencontros e desencontros... Grandes aventuras e descobertas!
Na fase adulta, viajar tornou-se sinônimo de conhecer: pessoas, jeitos de ser, lugares com suas especificidades, mas ainda a mim mesma vivendo em outras circunstâncias, relacionando-me com o novo numa eterna busca por me descobrir como indivíduo. Curioso como o que procuramos em cada viagem, caracteriza nossa essência, diz quem somos.
A cada viagem que faço, volto com uma nova perspectiva da vida, a partir das novas experimentações, idealizo novos objetivos pessoais, comovente como tem acontecido isso comigo. Às vezes de maneira mais sutil, outras de maneira bem intensa. Interessante como vamos longe para encontrar a nós mesmos...
Em 2015, numa viagem bem planejada, quebrei minha perna e passei a fazer uma viagem interior que me levou a muitas descobertas e muita transformação. No ano seguinte, optei por não viajar nas férias e, no fundo, sei que significava não estar pronta para outro contato comigo mesma de maneira tão intensa.
Atualmente, estou pronta e disposta... Volto a planejar viagens e assim quero seguir para e na outra metade da vida: planejando encontros com lugares, pessoas, costumes e, sempre com as minhas múltiplas possibilidades de ser, inclusive as que ainda não conheço.
Acabo de me dar conta das razões que me levam a desejar sempre viajar no meu aniversário... Delicioso exercício da escrita...


 Sandra Bouças.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Territórios

Antes viajava tentando me encontrar.
Já viajei também para me perder.
Viajei para esquecer
Para fugir... Muitas vezes de mim mesma.

De agora em diante quero outros rumos.
Quero o encontro.
Com o ar, a terra, o sol, a água... a água
Quero encontrar gentes. 
Os meus e os dos outros.
Lá longe, aqui pertinho.
Quero estar.

Explorar os território.
Os que estão ali.
Os que estão dentro de mim.

Estar em contato com a natureza.
E do que mais belo o homem construiu.
O barulho silencioso da cachoeira.
E o silêncio das multidões nos museus lotados.

Mas não tenho mais a pressa de antigamente.
Pode ser tudo devagar, contanto que seja intenso.
Contanto que seja com estes e não mais com aqueles.
Contanto que seja de verdade, e não mais um fetiche como tantos na nossa vida.

Ana Guabiraba


Planos de Viagens

Quero ir a tantas partes!

Com os amigos, para lugares com redes e grandes cozinhas.
Que possamos trocar ideias, gargalhar dos nossos tropeços e fortalecer os laços.














Com os filhos, para lugares com águas e areias.
Que possamos brincar e correr, festejar os momentos juntos e eternizar os carinhos.











Com o parceiro, para lugares com Arte e boa comida e vinho.
Que possamos nos encantar, conversar, planejar novas aventuras juntos e fazer amor.















Sozinha, só comigo, para lugares de silêncios e verde.
Que eu possa acalmar, olhar-me com generosidade, reverenciar Deus e expandir meu amor próprio.











Daniela Bonafé

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O dia será de sol, sem nuvens

Sabe aquela dor que vem do fundo da alma? Dói tanto que só é possível chorar. Você nem sabe ao certo o que dói. Pensamentos misturados. Que vão e que vem. Uma sensação terrível de que você não vai dar conta das coisas. São muitos papeis, todos muito intensos. Nós somos humanos e o dia continua tendo 24 horas. Incompreensões alheias e a auto cobrança. Frustrações. Me sinto incapaz. Seria muito bom dormir para sempre.

Existem momentos em que tudo parece estar fora do lugar. Não há ânimo para fazer as coisas mais simples da vida. Por que comigo? Por que estou me sentindo assim? Por que não consigo superar? Você que sempre foi otimista. Sempre levou uma palavra de esperança.

Sou jovem, tenho uma família linda, tenho um emprego, uma casa, estudo, viajo. Não tenho o direito de ficar triste. Existe quem tenha motivos para sofrer muito mais do que eu. Não tenho o direito de ficar triste. Preciso criar minhas filhas, preciso trabalhar. O meu trabalho interfere na vida de muita gente. Não posso, não tenho direito. Não posso.

Está tudo fora do lugar. Não estou mais conseguindo enxergar aquele mundo promissor, inclusivo, diverso. No lugar vejo homofobia, racismo, sexismo e preconceito. Crise econômica, escola sem partido, desemprego, delações premiadas. Cada vez mais pessoas em situação de rua. Violência. Depois de tantos domingos marchando com as crianças por um mundo que não fosse esse, não tenho mais forças. Preciso ser egoísta, preciso concentrar o mínimo de energia em mim e nos meus, senão vou sucumbir.

Vamos lá. Colocar uma roupa e um sorriso no rosto. Você tem compromissos, precisa cumprir. Preciso? Não, não quero. Preciso viver a crise. Preciso me encontrar. Preciso experimentar. Vivenciar. Fracassar. Errar. Preciso sentir toda a minha frágil humanidade.

Depois do choro profundo, vem o silêncio. Me recolho e penso sobre mim, sobre os planos pra vida, sobre as relações, sobre a família, sobre o amor. Vem as palavras das pessoas queridas. E o “eu te amo e vou estar aqui sempre que você precisar”. Vem o diálogo. O dar as mãos e olhar juntos na mesma direção, traçando planos para o futuro. Depois o café com uma amiga. A terapia. O cinema. O abraço carinhoso das filhas que sentem quando as coisas não vão bem. O aconchego das irmãs e aquele amor de pai e mãe. Quanto cuidado. Não quero mais sofrer, não quero mais fazer sofrer.

Desse turbilhão, tiro uma lição: Coisas boas não aconteceram em 2007, nem em 2017, posso pular 2027?

Brincadeiras à parte, vislumbro que após uma longa madrugada de tempestades, as estrelas já estão a tiritar no escuro do céu e o dia será de sol, sem nuvens. Meus olhos já podem ver com clareza que haverá amor, companheirismo, amigos e tudo que é bom. Agora é guardar a energia necessária para a luta que virá. Na outra metade da vida precisaremos estar juntos e vigilantes, apoiando uns aos outros no sofrer inevitável e celebrando as nossas vitórias.


Lívia Freitas  

Encapsulados

A ideia é falar sobre o sofrimentos.
Assim... no plural.
Os que foram, os que são, os que serão.
Os que vivenciamos, os que causamos.
Aqueles que conhecemos, os esperados e os que nem imaginamos.

Destes todos para mim os mais doloridos são aqueles que serão.
O que ainda não chegou:
Estar paciente.
O que depende da vontade do outro.
O corpo que não acompanha.
Sofrer é esperar.

Os que vão embora.
Porque cresceram, vão ganhar o mundo.
Porque a vida é um estado provisório.
Porque os ciclos se encerram.
A partida é sofrimento.

Os planos não concretizados.
Os sonhos não materializados.
Os projetos interrompidos.
Sofrer é esperar o que não será.

A constatação da desigualdade.
A dor do outro, que também é minha.
As portas trancadas, as janelas fechadas, os corações cansados.
Sofrer é visualizar o desamor.

Dizer não.
Deixar passar.
Fingir que não viu.
Fechar, trancar, afastar.
Eu também faço sofrer.

Encapsular para não viver estas dores
É não estar no Todo.
Por um tempo a escolha foi esta.

Agora não abro mão do que está por vir.

Ana Guabiraba. 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Sofrer é parte do que nos faz crescer

O desafio da rodada era refletir acerca do sofrimento... Ia percorrendo o caminho de selecionar uma forma de sofrimento, depois pensei em definir causas de sofrimentos e por fim me dei conta de que, em cada fase e momento da minha vida, o sofrimento se revelou de formas diferentes e por causas diversas, dependendo de como eu estava constituída; resolvi, então, passear pela minha linha do tempo e registrar as ocasiões em que faltou felicidade...

Vou começar minha viagem pela infância... Quando fecho os olhos e busco as lembranças dos momentos difíceis, enxergo-me criança tendo que conviver com a ausência da minha mãe. Mãe que trabalhava e batalhava muito para sustentar suas duas filhas que tiveram que aprender, desde muito cedo, como se cuidarem mutuamente, como se amarem para se protegerem inclusive da solidão que sente uma criança sem sua mãe por perto. Quantas vezes chorei na janela enquanto a esperava e me desesperava com medo que não voltasse.

Da adolescência, quero registrar o sofrimento advindo das despedidas de amigxs e de amores... Cada despedida dolorosa vivenciei, em algumas delas, pude sentir tanta dor interna como se o coração estivesse passando por um espremedor. Sofrimento de saudade, intenso sofrer por aquelxs que nunca mais voltaram.

Da juventude, destaco o sofrimento que se revela pelas injustiças, opressões e desigualdades promovidas por um sistema excludente da qual também fui vítima: iniciei minha jornada no mercado de trabalho bem cedo e não era para sustentar os caprichos e desejos da juventude, mas para ajudar no sustento da casa; estudar e trabalhar ao mesmo tempo; presenciar as dificuldades da mulher que me sustentou sozinha sofrendo também o abandono social.

Na fase atual, o sofrimento se aproxima de mim sempre por intermédio de outra pessoa: sofro diante de uma criança que chora e se vê sem saída frente à violência do mundo; sofro se não consigo ser a mãe que desejo para meu/minha filhx; sofro diante da impotência que sinto perante as dificuldades das pessoas em superarem suas limitações; sofro por não ser capaz de eliminar a dor dx outrx; sofro intensamente se causo dor a outro ser.

Parece que posso reviver cada cena que passou pela minha cabeça enquanto escrevia este texto e, apesar de me dedicar a lembranças do que me fez sofrer na vida, não posso negar que foi importante, principalmente porque identifiquei trajetórias percorridas por mim, estratégias escolhidas para superar o sofrimento que se abateu sobre mim a cada momento descrito aqui.

Para a outra metade da vida, não alimento a ilusão de que não existirão circunstâncias que trarão sofrimentos, pois seria ignorar a própria realidade deste mundo material, marcado  pelo esgotamento de recursos, por sua finitude, vulnerabilidade e inconstância, mas vou continuar buscando um posicionamento firme diante do sofrimento e permitir que ele permaneça em mim somente enquanto puder promover aprendizado e possibilidade de maturação e transformação, pois sinto que, no final, a diferença está na forma como me posiciono diante do que me faz sofrer.


Sandra Bouças

domingo, 3 de dezembro de 2017

Por favor, eu sinto demais! Pare!

Nasci dotada de esquisitices e uma delas é a sensibilidade extrema. Estou permanentemente conectada com a dimensão divina presente em mim, empaticamente interligada a tudo e a todos que me rodeiam, sejam visíveis aos olhos ou não.

Tanta sensibilidade me trouxe presentes, como a Arte e o trabalho com delicadezas mas também não me poupou sofrimentos. Ser sensível é sofrer por cada bicho, gente, planta e até pedra que não está bem. Então, desde bem criança, lido com sofrimentos diários, inevitáveis e inúmeras vezes insuportavelmente grandes.

Na juventude não houve escapatória e os julgamentos, até dos que eram mais íntimos, transbordaram minha alma em lágrimas. Não encontrei compreensão possível no mundo e meus sofrimentos desataram em crises, onde meus braços e pernas se batiam num pedido de socorro: Por favor, eu sinto demais! Pare!

Confiei meus sofrimentos a inúmeras gentes que não os honraram. Eu o fiz por ingenuidade e espero, que elas, por não entenderem a profundidade deles.

Num movimento constante e vagaroso, fui tateando por onde caminhar para que os sofrimentos fossem melhor suportados e para que as pessoas não abusassem do meu sentir. Aprendi a lidar com as dores cotidianas, transformando meus sofrimentos em poesias, costuras, velas e outras artesanias, na tentativa de sobreviver com lucidez a essa humanidade árida.

Há alguns anos tive a oportunidade de experimentar o maior sofrimento que já pude sentir e escolhi vivê-lo por inteiro, com toda a sua força e magnitude. Reconheci beleza nesse sofrimento, que fez nascer poema atrás de poema. Dessa dor imensurável, que mal consigo nomear de tão impossível que foi de ser vivida, eu renasci.

Sigo confiante na vida, nas pessoas, em Deus e no amor, esperando que na outra metade da vida eu consiga decidir com clareza quais sofrimentos desejarei viver intensamente. Que eu consiga fazer pontes com as dores, para que elas me religuem cada vez mais com a eternidade.


Daniela Bonafé