Gosto muito dessa época do ano.
Essa ilusão do calendário de um ano que se fecha e outro que se abre, cheio de
novas possibilidades. A sensação de que podemos corrigir os erros, encerrar
ciclos e traçar novos planos.
O final do ano tem para mim gosto
de infância. Família reunida, dormir tarde, conversas intermináveis, risos,
brincadeiras, comidas especiais, presentinhos. Vejo ao longe, uma menina de
quatro anos, abrindo com alegria seus presentes de Natal. Mais tarde me lembro
aos seis ganhando uma mochila especial para ir para a 1ª série. Já estou com 16
anos e conto a minha prima sobre um amor, que como toda adolescente apaixonada achava
que seria pra sempre. De repente tenho
27 e estou feliz e com os seios latejantes, segurando minha filha no seu quinto
dia de vida. Agora tenho 35 anos e estamos avós, avô, tios, tias, mães, pais,
crianças e nossa querida canina em mais um final de ano, rindo das nossas
misérias e celebrando nossas conquistas e percebendo o quanto, apesar das
nossas diferenças, há muito mais coisas que nos aproximam e que somos mais
felizes juntos.
Este é o momento propício também
para revistar as perguntas clássicas da vida: De onde viemos? Para onde vamos? Existe
quem responda a essas perguntas com as certezas da fé. Eu não as tenho. O que
sei é de uma história de migrantes cearenses e outra de imigrantes portugueses
que buscavam melhores condições de vida, que tinham planos para o futuro e
tiveram filhos e em algum ponto da história, em um sete de setembro, no cinema,
assistindo o Farol do Fim do Mundo, porque Romeu e Julieta estava lotado, um
homem e uma mulher selaram um beijo e, sem imaginar, uma vida. Desse encontro,
saíram quatro mulheres. Uma tornou-se
Lívia, por culpa de Jorge Amado. Lívia não encontrou Guma, mas encontrou
Marcos. Não era sete de setembro, nem foram ao cinema. A história deles começou
(ou recomeçou) no teatro, com Plínio Marcos. E eles sonharam, fizeram planos e
se amaram tanto que transbordaram em Anita e Cecília (porque a vida é feita de
luta, mas também de música e poesia). E eles, como todos os outros, também
viveram angústias e crises, mas se reencontraram para continuar essa história,
que não é feita de certezas, nem é linear, é só mesmo amarrada por uma vontade
imensa de seguir lado a lado e ser muito mais que dois.
E se não podemos responder de onde
viemos ou para onde vamos, ao menos podemos responder o que queremos fazer com
essa vida, que está aqui e que é agora.
Lívia Freitas
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