terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Um olhar para vida.

Gosto muito dessa época do ano. Essa ilusão do calendário de um ano que se fecha e outro que se abre, cheio de novas possibilidades. A sensação de que podemos corrigir os erros, encerrar ciclos e traçar novos planos.

O final do ano tem para mim gosto de infância. Família reunida, dormir tarde, conversas intermináveis, risos, brincadeiras, comidas especiais, presentinhos. Vejo ao longe, uma menina de quatro anos, abrindo com alegria seus presentes de Natal. Mais tarde me lembro aos seis ganhando uma mochila especial para ir para a 1ª série. Já estou com 16 anos e conto a minha prima sobre um amor, que como toda adolescente apaixonada achava que seria pra sempre.  De repente tenho 27 e estou feliz e com os seios latejantes, segurando minha filha no seu quinto dia de vida. Agora tenho 35 anos e estamos avós, avô, tios, tias, mães, pais, crianças e nossa querida canina em mais um final de ano, rindo das nossas misérias e celebrando nossas conquistas e percebendo o quanto, apesar das nossas diferenças, há muito mais coisas que nos aproximam e que somos mais felizes juntos.

Este é o momento propício também para revistar as perguntas clássicas da vida: De onde viemos? Para onde vamos? Existe quem responda a essas perguntas com as certezas da fé. Eu não as tenho. O que sei é de uma história de migrantes cearenses e outra de imigrantes portugueses que buscavam melhores condições de vida, que tinham planos para o futuro e tiveram filhos e em algum ponto da história, em um sete de setembro, no cinema, assistindo o Farol do Fim do Mundo, porque Romeu e Julieta estava lotado, um homem e uma mulher selaram um beijo e, sem imaginar, uma vida. Desse encontro, saíram quatro mulheres.  Uma tornou-se Lívia, por culpa de Jorge Amado. Lívia não encontrou Guma, mas encontrou Marcos. Não era sete de setembro, nem foram ao cinema. A história deles começou (ou recomeçou) no teatro, com Plínio Marcos. E eles sonharam, fizeram planos e se amaram tanto que transbordaram em Anita e Cecília (porque a vida é feita de luta, mas também de música e poesia). E eles, como todos os outros, também viveram angústias e crises, mas se reencontraram para continuar essa história, que não é feita de certezas, nem é linear, é só mesmo amarrada por uma vontade imensa de seguir lado a lado e ser muito mais que dois.

E se não podemos responder de onde viemos ou para onde vamos, ao menos podemos responder o que queremos fazer com essa vida, que está aqui e que é agora.


Lívia Freitas

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