terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Ritos de passagem

Nascer, morrer... Ritos de passagem assim como acordar e dormir... “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou...”
                Ritos me encantam justamente por ter a sensação de que passo de uma circunstância, posição a outra. Transmutação... Marca a finalização de um ciclo e início de outro, momento de reafirmar propósitos, recarregar energias.
                Aniversários, ciclos mais longos, inícios de semanas, meses e anos, chegada a um novo lugar: para morar, trabalhar, viver, início de etapas, primeiras vezes nas experiências da vida, início e finalização de projetos vividos com entusiasmo, inícios e finais de cada estação do ano, decisão de viver junto de alguém amadx, casamento, nascimento dxs filhxs, dente que cai, dente que nasce... Para cada acontecimento um rito, uma preparação, uma nova consciência, a oportunidade de um renascer.
                Renasço a cada amanhecer, a cada nova oportunidade de viver de maneira diferente do que tenho vivido. A cada finalização/ início de percurso, passo por desconstrução e reconstrução do que sou/ desejo ser, renovo-me e me reformulo.
                Diante de cada momento destes, nem sempre há uma sequência de ações específicas que determinam concretamente um ritual; mas há sempre a intencionalidade, a disposição interna de viver este momento de uma forma única e especial. Fica sempre uma lembrança, a retrospectiva vivenciada mentalmente, as análises pessoais, a reprogramação dos objetivos, as superações necessárias para seguir adiante.
                Há anos, ao contar a um grande amigo (que aliás nem sei por onde anda) que os meus banhos de sábado eram mais especiais porque era o momento em que reservava para pensar na semana que foi e na semana que iniciava, momento para reorganização de ideias, sentimentos e ações, além dos cuidados mais específicos com o meu próprio corpo, ouvi que eu era a pessoa mais ritualista que ele conhecia. Nunca mais me esqueci daquela observação e confesso admitir que toda transição me fascina e me comove ainda mais perceber que para alguém ficou evidente que, para mim, nada é trivial.
                Este texto, por exemplo, é um rito para mim... Ele me possibilitou, além de pensar sobre a importância dos ritos em minha vida, percorrer mentalmente caminhos que segui até a escrita deste último texto do ano dentro deste projeto de escrita de quatro mulheres que se propuseram a refletir e a compartilhar seus sentimentos, suas posições e concepções de vida.
Este texto marca a conclusão de uma etapa da vida e uma versão de mim mesma, momento em que me reorganizo e me recupero do que não fui... Rito tem este sentido para mim: oportunidade de conexão comigo mesma e minha própria reinvenção.

                Há mais de 20 anos, alguém no mundo já me identificava aos ritos (relato acima da observação de um amigo); desejo para a outra metade da vida, perseverar na relação que estabeleço com os ritos de passagem da forma como tenho vivenciado até o momento porque me dão pistas da minha vivacidade. Aliás, o que não é este projeto de escrita para a outra metade da vida, senão um rito de passagem para uma fase tão especial das nossas vidas? Que deliciosa descoberta!

Sandra Bouças. 

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