Nascer,
morrer... Ritos de passagem assim como acordar e dormir... “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou...”
Ritos me
encantam justamente por ter a sensação de que passo de uma circunstância,
posição a outra. Transmutação... Marca a finalização de um ciclo e início de
outro, momento de reafirmar propósitos, recarregar energias.
Aniversários,
ciclos mais longos, inícios de semanas, meses e anos, chegada a um novo lugar:
para morar, trabalhar, viver, início de etapas, primeiras vezes nas
experiências da vida, início e finalização de projetos vividos com entusiasmo, inícios
e finais de cada estação do ano, decisão de viver junto de alguém amadx,
casamento, nascimento dxs filhxs, dente que cai, dente que nasce... Para cada
acontecimento um rito, uma preparação, uma nova consciência, a oportunidade de
um renascer.
Renasço
a cada amanhecer, a cada nova oportunidade de viver de maneira diferente do que
tenho vivido. A cada finalização/ início de percurso, passo por desconstrução e
reconstrução do que sou/ desejo ser, renovo-me e me reformulo.
Diante
de cada momento destes, nem sempre há uma sequência de ações específicas que
determinam concretamente um ritual; mas há sempre a intencionalidade, a
disposição interna de viver este momento de uma forma única e especial. Fica sempre
uma lembrança, a retrospectiva vivenciada mentalmente, as análises pessoais, a
reprogramação dos objetivos, as superações necessárias para seguir adiante.
Há
anos, ao contar a um grande amigo (que aliás nem sei por onde anda) que os meus
banhos de sábado eram mais especiais porque era o momento em que reservava para
pensar na semana que foi e na semana que iniciava, momento para reorganização
de ideias, sentimentos e ações, além dos cuidados mais específicos com o meu
próprio corpo, ouvi que eu era a pessoa mais ritualista que ele conhecia. Nunca
mais me esqueci daquela observação e confesso admitir que toda transição me
fascina e me comove ainda mais perceber que para alguém ficou evidente que,
para mim, nada é trivial.
Este
texto, por exemplo, é um rito para mim... Ele me possibilitou, além de pensar
sobre a importância dos ritos em minha vida, percorrer mentalmente caminhos que
segui até a escrita deste último texto do ano dentro deste projeto de escrita
de quatro mulheres que se propuseram a refletir e a compartilhar seus
sentimentos, suas posições e concepções de vida.
Este texto
marca a conclusão de uma etapa da vida e uma versão de mim mesma, momento em
que me reorganizo e me recupero do que não fui... Rito tem este sentido para
mim: oportunidade de conexão comigo mesma e minha própria reinvenção.
Há
mais de 20 anos, alguém no mundo já me identificava aos ritos (relato acima da
observação de um amigo); desejo para a outra metade da vida, perseverar na
relação que estabeleço com os ritos de passagem da forma como tenho vivenciado
até o momento porque me dão pistas da minha vivacidade. Aliás, o que não é este
projeto de escrita para a outra metade da vida, senão um rito de passagem para
uma fase tão especial das nossas vidas? Que deliciosa descoberta!
Sandra Bouças.
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