domingo, 21 de janeiro de 2018

Tecnologia à flor da pele


Tenho buscado refletir acerca dos caminhos que percorri e dos que desejo ainda percorrer e um dos temas inevitáveis é a tecnologia... Difícil para mim, percebi minha dificuldade na não disposição de escrever sobre, mas persisti porque senti a necessidade de olhar para a minha fragilidade diante do tema.

Até o momento, constato que tenho, em muitos aspectos da minha vida, buscado formas de libertação e nesse sentido passei a olhar para os impactos da tecnologia na vida humana. Apenas por reflexão, arriscaria dizer que a humanidade produz tecnologia visando a liberdade, mas que em algum momento se perde e se aprisiona.

Como exemplo, cito a loucura da criação de aparelhos cada vez mais sofisticados, a perda que sofrem as relações quando as pessoas preferem se falar à distância, a sobrevida proporcionada por aparelhos na tentativa de “esticar” a vida, a produção de armas capazes de acabar com a humanidade.

Fico pensando no que mais vou presenciar de avanço tecnológico e para que lugar estamos indo. Busco, em certa medida, a preservação das minhas crianças e fico me perguntando sobre o momento ideal de começarem o acesso aos eletrônicos mais fascinantes... Não tenho respostas porque ainda não defini exatamente minhas próprias percepções.

O fato é que tenho presenciado em alguns setores, a humanidade buscando o caminho de volta, desde o nascer até o morrer, buscando a simplicidade da vida, o contato, a criação manual, os ritmos da natureza, a busca por ouvir e sentir o corpo e a essência, a verdadeira liberdade...

Não sou contrária às invenções tecnológicas, reconheço sua importância e as valorizo, mas receio me aprisionar no contato com elas. Ainda prefiro inseri-las devagar, no momento em que estivermos convictxs de que podemos viver bem sem elas.

Sandra Bouças

sábado, 20 de janeiro de 2018

Puxão de cabelo, unhadas e todo mundo se pegando no chão.

Se for saneamento básico... quero.
Se é para ver e ser vista... dispenso.

Se for para registrar, apreender... quero.
Se me tira do momento... dispenso.

Se é para trazer conforto físico... quero.
Se simplesmente prolongar a vida... dispenso (pelo menos por enquanto).

Se desembaraça o cabelo... quero.
Se não me reconheço... dispenso.

Se for para mim e para muitos... quero.
Se custar uma viagem... dispenso.

Se é para substituir algo em uso... raramente eu quero.
Se é para me tirar dos trabalhos domésticos... em geral eu quero.

Se me desconecta dos que estão comigo... estou tentando dispensar.
Se me dá mais tempo com os meus... quero.

Se minha mãe consegue usar é bom.
Se meus filhos me ensinam a usar é ótimo. 

Uma relação cheia de contradições.
Mas que anseia por  um novo encontro.


Ana Maria Guabiraba

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Sejamos Melhores

Tão criticada. Tão surpreendente. Motivo de discórdia. Fetiche. Usada e abusada para o bem e para o mal. Sou apaixonada por ela, que pode me devorar num só bocado.

Pensa a roda, as tecnologias egípcias ou astecas, até a atualidade, todas as invenções incríveis que a humanidade vivenciou? Alto grau de complexidade lógica e matemática, de criação e inventividade... Os seres humanos são mesmo impressionantes!

A tecnologia sempre me encantou com seu frescor, tudo novo sempre e nem dá tempo de enjoar. A novidade é o máximo de prazer para almas aquarianas. Ao mesmo passo, sempre me deixou sem ar com sua desenfreada, frenética e constante corrida, que exclui a todos, até os mais antenados seres.

Como se não bastasse as questões acerca da garantia e manutenção do acesso à tecnologia, que sumariamente coloca a esmagadora maioria de gentes à margem do mundo, ainda temos que lidar com as loucuras que vivem conosco e por nossa vontade dentro dessa bolha em que os que têm acesso vivem, incluindo eu. Engraçado que em 1993, num festival de música na escola, eu criei e cantei uma música que falava da tal aldeia global, que hoje nada mais é do que essa bolha ridícula e nada democrática!

Nas redes sociais, notícias falsas e boatos tomam proporções preocupantes, nocivas e sobretudo, quase autônomas; na mesma grandeza da falta de checagem dos fatos por todos que compartilham e curtem tais fakes. Black Mirror nunca foi tão real se pensarmos nos likes como parâmetros que graduam a autoestima, interesses e projetos pessoais e coletivos. Mas não vejo a tecnologia se resumindo à isso e aos problemas éticos que tais questões envolvem.

Leitores de retina e digital; bluetooth, nuvem e outras formas de transferência e armazenamento de dados, softwares para criação de games e vídeos, apps para criação e edição de fotos... Todos os signos podem ser revistos e questionados diariamente a cada tratamento de imagem, toda a memória pode ser coloca em xeque a cada bug do sistema; você pode não ser você ou ainda pior, ser clonado! A linguagem, as representações, a história, todas as ciências estão se transformando numa velocidade jamais vista se refletirmos à partir dos impactos da tecnologia nessas áreas.

Quando penso em tudo isso que vivo agora e que não existia quando nasci, sinto um misto de medo e desejo, meu olho brilha mas meu estômago dói. Porque sou exatamente da geração que fez curso de datilografia aos 12 anos e de windows 3.11 aos 14 anos. Eu ouvi música no vinil, na fita K7, no CD, no DVD, no pen drive e agora no streaming. Mais rápido que meu pensamento crítico sobre cada mídia...

Na proposta de visualizar perspectivas no campo da tecnologia para a outra metade da vida, me perco num sonho-pesadelo sem fim. Coloco frente a frente a beleza da arte digital e a censura de exposições de arte nos museus e pergunto: queremos ver o quê? a evolução dos transplantes de órgãos e os jovens mortos pela polícia diariamente e pergunto: queremos salvar quem? o dinheiro na mão ao comando da voz e a fome matando milhares e pergunto: quem somos afinal?

Por detrás da tecnologia há nosso livre arbítrio, nosso caráter, nossas intenções e vontades, há interesses e poder. A tecnologia serve como bode expiatório dos males humanos, aquela que leva a culpa das nossas falhas como sociedade. Ela serve ao capitalismo como serviria a qualquer outro sistema, afinal é produto de nossa criação e manipulação.

Então, acho que no fundo do coração, para a outra metade da vida, espero que sejamos melhores. Melhores no amor, para que saibamos o que fazer com as criações atômicas bombásticas e outras invenções tecnológicas aterrorizantes; para que todos sejam de fato incluídos, ouvidos e respeitados; para que o direito a tudo o que a tecnologia proporciona seja garantido a todos. E por fim, também almejo tempo para viver o presente que será, sem ser atropelada pelos meus próprios posts.


Daniela Bonafé


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Mão com mão, olho no olho, a qualquer hora do dia

Foram muitos os pensamentos e sentimentos que me invadiram quando pensei na amizade em retrospectiva e para a outra metade da vida. Abri minha caixa de recordações e meus álbuns de fotografia e fiquei horas me deliciando com aquilo. Recados na agenda, cartões de Natal, correspondências infinitas, bilhetes. Fiquei com saudade das cartas, como era gostoso abrir a caixa do correio e ver aquela carta, olhar o selo e imaginar que novidades podiam estar ali dentro.... Apareceram as viagens, as festas, as celebrações, o primeiro amor, beijo, transa; as paixões, as conquistas pessoais, as conquistas do outro, as cartas de amor, ser mãe, as alegrias, as crises, os segredos e sobretudo a vontade de estar junto e compartilhar a existência.

Fui me lembrando de tanta gente que passou pela minha vida e a importância singular que tiveram: Cacilda Becker, EMIA, KK, FAI, PUC, Niceia, Leonel, do Jabaquara, de Pirituba, da Pastoral da Juventude, do Chile, amigos virtuais.

As minhas irmãs são um capítulo à parte. Marília, Maíra e Láisa. Temos muitas semelhanças. Somos muito diferentes. Somos escuta atenta, abraço, ombro amigo, gargalhadas, lágrimas. Conversas sinceras, que doem e alegram, que cuidam e libertam.

Alguns amigos já não cabem mais em rótulos ou categorias, se tornaram amigos da vida e ponto. Outros ficaram em algum tempo e lugar, mas sei que quando nos reencontrarmos vai ser aquele abraço gostoso, cheio de saudades e belas recordações. Aliás, nessa busca me deu vontade de reencontrar tanta gente....

Pra outra metade da vida é isso que desejo: compartilhar a vida com os meus amigxs.  Os que já passaram pela minha vida e estão dispersos pela distância, pelo tempo, pela rotina que nos consome, tem espaço no meu coração e podem vir a hora que desejarem, sem melindres ou cobranças. Os que estão na minha vida quero cultivar e cuidar, quero a presença e quero ser presente, preservando todas essas relações em que podemos ser nós mesmos, em que acolhemos e somos acolhidos com nossos defeitos e virtudes, de peito aberto, mão com mão, olho no olho, a qualquer hora do dia.


Lívia Freitas

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Amizade, alimento anímico.

Saúde e amigxs... Muitxs amigxs! É o meu desejo genuíno para a outra metade da vida... Desde que nos embrenhamos nos pensamentos para escrevermos sobre amizade, fui me lembrando das minhas amizades da vida: retomei contatos, busquei nas redes sociais, recordei momentos e até sonhei com algumas pessoas muito queridas que hoje estão longe. Como foi gostosa esta viagem de me lembrar de cada pessoa e do que cada uma me trouxe, de como cada um e cada uma contribuiu para quem sou hoje. Quanta saudade de tantas pessoas... Como foi gostoso constatar quão abençoada sou em função das pessoas que cruzaram meu caminho.
Nunca fui de poucxs amigxs, sempre em bando, em grupo. Sim... Tive amigxs confidentes, tive amigas para andar abraçada cantando alto pelos cantos, tive amigas para trocar roupas, tive amigas que acolheram meu pranto, amigas para rir muito, amigxs para beber junto, tenho amigas para refletir e debater assuntos existenciais e registrar no blog, tive amigxs suficientes para sofrer e chorar em cada despedida e sentir o coração doer de saudade.
Amigxs de infância, da adolescência, da juventude rebelde, amigxs que sempre estiveram e amigxs que foram chegando. Por um tempo pensei que amigxs de verdade fazíamos somente na infância até que fui sendo presentada por amigxs que chegaram na fase adulta e passaram a ocupar um espaço essencial na minha vida.
Interessante se deparar com pessoas que trilharam caminhos distantes e se constituíram a partir de perspectivas tão caras quanto as suas promovendo tanta afinidade. E as que passam a trilhar caminhos diferentes, permanecem em nossas vidas: uma vez amigx, sempre amigx!
Se eu tivesse que propor um termômetro para avaliar o grau de felicidade das pessoas, pensaria imediatamente na quantidade e qualidade das amizades. Quem tem amigxs, está a salvo das enfermidades da vida, pois mesmo que haja um pior momento, haverá quem viva junto, haverá quem ajude a carregar o fardo, o peso...
Se eu puder escolher a categoria de relação a estabelecer com Deus, será a de amiga porque, para mim, não há grau superior de relação fora da amizade. Podemos começar as relações de muitas formas, mas se é relação que fica, é amizade. Tenho amiga-irmã, amigo-amor, amiga-mãe, amigxs-companheirxs de trabalho, de sonhos e de luta e, para mim, é a amizade que garante a pureza e a integridade das relações.
Pedido de amigx para mim é chamado de Deus e quando busco nx amigx, busco a essência Divina. Por isso desejo saúde e amigxs... Com saúde posso buscar concretizar meus sonhos e ideais e com xs amigxs terei com quem compartilhar os resultados das minhas tentativas: sejam eles bons ou ruins. Um brinde à amizade!


Sandra Bouças

Amigos.

Nos aproximamos por afinidade.
Ou pela falta dela.
E de repente a vontade de compartilhar a vida é enorme.
Interesses em comum, admiração, respeito, vontade de estar junto.
Amizade é o querer bem gratuitamente.

Já foram muitos.
Mais do que existiam de fato.
Hoje são aqueles que o tempo permite cultivar.
Amanhã aqueles que o tempo não afastou.

Queria falar daqueles que foram embora.
E que voltam em sonhos recorrentes.
A dor que sinto pela partida (as mais diversas partidas) muitas vezes não cabe em mim.
E busco nos reconectar através dos sonhos.

Para a outra metade, mais do que construir, não quero perder laços.
Quero que nossos filhos cresçam juntos.
E entendam o valor da escuta, do aconchego e da verdade que só existe nas relações de amizade.

Quero o barulho das risadas.
E estarei com o ombro preparado para as tristezas.
Quero a cerveja gelada.
E a meditação silenciosa.
Quero que se acheguem os do marido, dos filhos, da mãe.
Para juntos construirmos uma camada de energia indestrutível, fortalecida pelo amor.


Ana Maria Guabiraba.