quinta-feira, 22 de março de 2018

Dias de lágrimas


Hoje, diante de representantes de três das mais de mil famílias com as quais convivemos diariamente na escola, percebi em mim a confusão de sentimentos e pensamentos... Tentava explicar as razões e motivos da nossa luta e, por segundos, sentia-me segura, mas nos segundos seguintes, sentia-me impotente...

                Passava pela minha cabeça, tudo o que eu havia estudado nos livros de história acerca das insanidades humanas e que há algum tempo passei a viver na pele, soa quase como uma prova para a minha incapacidade de acreditar em tudo o que já li. Então, eu me sentia insignificante, mas ao sentir que tínhamos apoio, voltava a me sentir forte.

                Enquanto conversávamos, experimentei o desejo de me enfiar embaixo da mesa e depois de me pôr sobre ela e gritar o que passávamos. Vivenciava a loucura de me sentir sozinha e ao mesmo tempo representando a multidão com a qual tenho me juntado desde que tomei minha posição social.

                Não tem sido fácil constatar a perversidade de alguns, não tem sido fácil presenciar mortes e sangramentos, não tem sido fácil conviver com as incertezas e as perdas, não tem sido fácil lidar com a minha luta interna para não esmorecer, quase quero fechar os olhos e acordar deste pesadelo, mas logo constato que não consigo porque tudo é tão real: opressão, repressão em nome da manutenção de privilégios daquelxs que se intitulam superiorxs.

                Sinto medo de a qualquer momento não conseguir mais bradar, sinto medo de não sentir mais a força da indignação e do desejo de mudar o mundo como sempre senti na adolescência, sinto medo que as pessoas também se cansem e desistam porque reconheço que precisamos de muitxs...

                Lembrar que há uma semana, muitxs de nós eram atingidxs com bombas e que uma de nós perdia a própria vida traz à minha existência a marca da impotência sem tamanho diante das armas que utilizam os que desejam o extermínio das múltiplas vozes e direitos... Então, retomo minha conversa, consciente que esta é a minha arma e a minha resistência... Não vou me calar...

Sandra Bouças

domingo, 18 de março de 2018

Que nada nos amedronte

Ontem, quando saímos de casa, minhas filhas queriam ir pra manifestação com a gente e tivemos que dizer não. Elas insistiram. Dissemos que não poderiam pela violência do dia anterior. Elas tinham visto pela TV. Muito tensa a Anita disse:

- Mas e se vocês não voltarem? Quem vai cuidar da gente?

Aquilo me deu um aperto no coração, um nó na garganta.

O dia foi tranquilo e nós retornamos e fomos recebidos com um grande abraço. Mas na mesma hora lembrei que a Marielle não retornou, que o Anderson também não. Na mesma hora pensei nos filhos que tiveram seus pais assassinados na ditadura e dos pais que até hoje não enterraram seus filhos. Daqueles que morrem vítimas da violência urbana.

Acho que antes eu era mais sonhadora, hoje sou mais corajosa. Hoje eu vejo com mais clareza o papel social que temos a obrigação de representar nesse momento histórico. Que nada nos amedronte, que nada nos derrube, que sejamos presença transformadora no mundo, reconhecendo os nossos limites com humildade e fortalecendo a luta dos que estão além de nós.  Lutando pelos direitos trabalhistas, mas também lutando pela dignidade da vida de todos, pelo acesso aos direitos básicos de cada cidadão.

Vamos em frente, vamos juntos. O sol há de brilhar.


Lívia Freitas

domingo, 11 de março de 2018

Medo e movimento.


Estou na rua porque tenho medo.
Medo de um futuro mais cinzento do que as tardes de julho.
Medo de que as próximas gerações tenham ainda menos direitos.
Medo de desapontar aqueles que vieram antes de mim e com suor e sangue construíram um hoje menos pior.
  
Mas... para ser sincera, bem sincera, tenho que confessar que precisamos repensar este nosso jeito de fazer.
Não... a resposta não é a internet.
Nela falamos para os nossos.
Mais afastamos do que aproximamos.
Aqueles que pensam diferente, ou ainda não pararam para pensar nesta questão, continuarão distantes.

Acho que precisamos voltar ao tête-à-tête.
Algum movimento para juntos pensarmos e repensarmos.
Construirmos, destruirmos, reconstruirmos.
Repensar o nosso tempo, nosso cotidiano, para vislumbrarmos outras (e não novas) possibilidades.
Acreditarmos que as próximas gerações serão capazes de enfrentar os desafios que são colocados a elas.

Mas nunca, nunca parada.
Nunca conformada.
Nunca colocada na forma.
Nunca acorrentada no meu próprio medo.
Porque sem o movimento meu corpo padece e minha alma morre.

Ana Maria Guabiraba. 

sábado, 10 de março de 2018

Lá vai ela

Lá vai ela, mais uma vez:
A esperança empunhada na mão,
A coragem ardendo no peito e
O grito descola da boca
Enquanto os pés seguem em justo caminhar.
A militância está para ela
Como o sol, a lua e o ar:
Imprescindível.
É o seu jeito de sobreviver
A aridez das relações contemporâneas.

Não se trata de fugir da realidade
Que oprime e desarruma o coração,
Para um aqui e agora utópico.
É estar presente na ação, na mão dada,
No pensar constante e para todos.

Lá vai ela, mais uma vez:
Desenterrar a empatia do povo,
Escarafunchar as consciências e
A indignação lhe esbugalha os olhos
Enquanto suas pernas arrastam os outros.
A militância está para ela
Como os filhos e o amor:
Sempre.
É o seu jeito de acreditar
Nesse mundo torto e acinzentado.

Há para ela um de tudo de coisas
Pelas quais vale a pena lutar e viver.
Não sabe ser se não for assim
E já que não cabe em lugar nenhum,
A militância lhe traz algum conforto.

Prefere a loucura à alienação.
Prefere o todo à parte.
Prefere a rua à televisão.
Prefere o direito à preferir.

E lá vai ela.


Daniela Bonafé