Hoje, diante de representantes de três das mais
de mil famílias com as quais convivemos diariamente na escola, percebi em mim a
confusão de sentimentos e pensamentos... Tentava explicar as razões e motivos da
nossa luta e, por segundos, sentia-me segura, mas nos segundos seguintes,
sentia-me impotente...
Passava pela minha
cabeça, tudo o que eu havia estudado nos livros de história acerca das
insanidades humanas e que há algum tempo passei a viver na pele, soa quase como
uma prova para a minha incapacidade de acreditar em tudo o que já li. Então, eu
me sentia insignificante, mas ao sentir que tínhamos apoio, voltava a me sentir
forte.
Enquanto
conversávamos, experimentei o desejo de me enfiar embaixo da mesa e depois de
me pôr sobre ela e gritar o que passávamos. Vivenciava a loucura de me sentir
sozinha e ao mesmo tempo representando a multidão com a qual tenho me juntado
desde que tomei minha posição social.
Não tem sido fácil
constatar a perversidade de alguns, não tem sido fácil presenciar mortes e
sangramentos, não tem sido fácil conviver com as incertezas e as perdas, não
tem sido fácil lidar com a minha luta interna para não esmorecer, quase quero
fechar os olhos e acordar deste pesadelo, mas logo constato que não consigo
porque tudo é tão real: opressão, repressão em nome da manutenção de
privilégios daquelxs que se intitulam superiorxs.
Sinto medo de a
qualquer momento não conseguir mais bradar, sinto medo de não sentir mais a
força da indignação e do desejo de mudar o mundo como sempre senti na
adolescência, sinto medo que as pessoas também se cansem e desistam porque
reconheço que precisamos de muitxs...
Lembrar que há uma
semana, muitxs de nós eram atingidxs com bombas e que uma de nós perdia a própria
vida traz à minha existência a marca da impotência sem tamanho diante das armas
que utilizam os que desejam o extermínio das múltiplas vozes e direitos...
Então, retomo minha conversa, consciente que esta é a minha arma e a minha
resistência... Não vou me calar...
Sandra Bouças