segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Sofrer é parte do que nos faz crescer

O desafio da rodada era refletir acerca do sofrimento... Ia percorrendo o caminho de selecionar uma forma de sofrimento, depois pensei em definir causas de sofrimentos e por fim me dei conta de que, em cada fase e momento da minha vida, o sofrimento se revelou de formas diferentes e por causas diversas, dependendo de como eu estava constituída; resolvi, então, passear pela minha linha do tempo e registrar as ocasiões em que faltou felicidade...

Vou começar minha viagem pela infância... Quando fecho os olhos e busco as lembranças dos momentos difíceis, enxergo-me criança tendo que conviver com a ausência da minha mãe. Mãe que trabalhava e batalhava muito para sustentar suas duas filhas que tiveram que aprender, desde muito cedo, como se cuidarem mutuamente, como se amarem para se protegerem inclusive da solidão que sente uma criança sem sua mãe por perto. Quantas vezes chorei na janela enquanto a esperava e me desesperava com medo que não voltasse.

Da adolescência, quero registrar o sofrimento advindo das despedidas de amigxs e de amores... Cada despedida dolorosa vivenciei, em algumas delas, pude sentir tanta dor interna como se o coração estivesse passando por um espremedor. Sofrimento de saudade, intenso sofrer por aquelxs que nunca mais voltaram.

Da juventude, destaco o sofrimento que se revela pelas injustiças, opressões e desigualdades promovidas por um sistema excludente da qual também fui vítima: iniciei minha jornada no mercado de trabalho bem cedo e não era para sustentar os caprichos e desejos da juventude, mas para ajudar no sustento da casa; estudar e trabalhar ao mesmo tempo; presenciar as dificuldades da mulher que me sustentou sozinha sofrendo também o abandono social.

Na fase atual, o sofrimento se aproxima de mim sempre por intermédio de outra pessoa: sofro diante de uma criança que chora e se vê sem saída frente à violência do mundo; sofro se não consigo ser a mãe que desejo para meu/minha filhx; sofro diante da impotência que sinto perante as dificuldades das pessoas em superarem suas limitações; sofro por não ser capaz de eliminar a dor dx outrx; sofro intensamente se causo dor a outro ser.

Parece que posso reviver cada cena que passou pela minha cabeça enquanto escrevia este texto e, apesar de me dedicar a lembranças do que me fez sofrer na vida, não posso negar que foi importante, principalmente porque identifiquei trajetórias percorridas por mim, estratégias escolhidas para superar o sofrimento que se abateu sobre mim a cada momento descrito aqui.

Para a outra metade da vida, não alimento a ilusão de que não existirão circunstâncias que trarão sofrimentos, pois seria ignorar a própria realidade deste mundo material, marcado  pelo esgotamento de recursos, por sua finitude, vulnerabilidade e inconstância, mas vou continuar buscando um posicionamento firme diante do sofrimento e permitir que ele permaneça em mim somente enquanto puder promover aprendizado e possibilidade de maturação e transformação, pois sinto que, no final, a diferença está na forma como me posiciono diante do que me faz sofrer.


Sandra Bouças

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