O desafio da
rodada era refletir acerca do sofrimento... Ia percorrendo o caminho de
selecionar uma forma de sofrimento, depois pensei em definir causas de
sofrimentos e por fim me dei conta de que, em cada fase e momento da minha
vida, o sofrimento se revelou de formas diferentes e por causas diversas,
dependendo de como eu estava constituída; resolvi, então, passear pela minha
linha do tempo e registrar as ocasiões em que faltou felicidade...
Vou começar
minha viagem pela infância... Quando fecho os olhos e busco as lembranças dos
momentos difíceis, enxergo-me criança tendo que conviver com a ausência da
minha mãe. Mãe que trabalhava e batalhava muito para sustentar suas duas filhas
que tiveram que aprender, desde muito cedo, como se cuidarem mutuamente, como
se amarem para se protegerem inclusive da solidão que sente uma criança sem sua
mãe por perto. Quantas vezes chorei na janela enquanto a esperava e me
desesperava com medo que não voltasse.
Da
adolescência, quero registrar o sofrimento advindo das despedidas de amigxs e
de amores... Cada despedida dolorosa vivenciei, em algumas delas, pude sentir
tanta dor interna como se o coração estivesse passando por um espremedor.
Sofrimento de saudade, intenso sofrer por aquelxs que nunca mais voltaram.
Da juventude,
destaco o sofrimento que se revela pelas injustiças, opressões e desigualdades
promovidas por um sistema excludente da qual também fui vítima: iniciei minha
jornada no mercado de trabalho bem cedo e não era para sustentar os caprichos e
desejos da juventude, mas para ajudar no sustento da casa; estudar e trabalhar
ao mesmo tempo; presenciar as dificuldades da mulher que me sustentou sozinha
sofrendo também o abandono social.
Na fase atual,
o sofrimento se aproxima de mim sempre por intermédio de outra pessoa: sofro
diante de uma criança que chora e se vê sem saída frente à violência do mundo;
sofro se não consigo ser a mãe que desejo para meu/minha filhx; sofro diante da
impotência que sinto perante as dificuldades das pessoas em superarem suas
limitações; sofro por não ser capaz de eliminar a dor dx outrx; sofro
intensamente se causo dor a outro ser.
Parece que
posso reviver cada cena que passou pela minha cabeça enquanto escrevia este
texto e, apesar de me dedicar a lembranças do que me fez sofrer na vida, não
posso negar que foi importante, principalmente porque identifiquei trajetórias
percorridas por mim, estratégias escolhidas para superar o sofrimento que se
abateu sobre mim a cada momento descrito aqui.
Para a outra
metade da vida, não alimento a ilusão de que não existirão circunstâncias que
trarão sofrimentos, pois seria ignorar a própria realidade deste mundo
material, marcado pelo esgotamento de
recursos, por sua finitude, vulnerabilidade e inconstância, mas vou continuar
buscando um posicionamento firme diante do sofrimento e permitir que ele
permaneça em mim somente enquanto puder promover aprendizado e possibilidade de
maturação e transformação, pois sinto que, no final, a diferença está na forma
como me posiciono diante do que me faz sofrer.
Sandra
Bouças
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