Nasci dotada de esquisitices e uma delas é a sensibilidade extrema. Estou permanentemente conectada com a dimensão divina presente em mim, empaticamente interligada a tudo e a todos que me rodeiam, sejam visíveis aos olhos ou não.
Tanta sensibilidade me trouxe presentes, como a Arte e o trabalho com delicadezas mas também não me poupou sofrimentos. Ser sensível é sofrer por cada bicho, gente, planta e até pedra que não está bem. Então, desde bem criança, lido com sofrimentos diários, inevitáveis e inúmeras vezes insuportavelmente grandes.
Na juventude não houve escapatória e os julgamentos, até dos que eram mais íntimos, transbordaram minha alma em lágrimas. Não encontrei compreensão possível no mundo e meus sofrimentos desataram em crises, onde meus braços e pernas se batiam num pedido de socorro: Por favor, eu sinto demais! Pare!
Confiei meus sofrimentos a inúmeras gentes que não os honraram. Eu o fiz por ingenuidade e espero, que elas, por não entenderem a profundidade deles.
Num movimento constante e vagaroso, fui tateando por onde caminhar para que os sofrimentos fossem melhor suportados e para que as pessoas não abusassem do meu sentir. Aprendi a lidar com as dores cotidianas, transformando meus sofrimentos em poesias, costuras, velas e outras artesanias, na tentativa de sobreviver com lucidez a essa humanidade árida.
Há alguns anos tive a oportunidade de experimentar o maior sofrimento que já pude sentir e escolhi vivê-lo por inteiro, com toda a sua força e magnitude. Reconheci beleza nesse sofrimento, que fez nascer poema atrás de poema. Dessa dor imensurável, que mal consigo nomear de tão impossível que foi de ser vivida, eu renasci.
Sigo confiante na vida, nas pessoas, em Deus e no amor, esperando que na outra metade da vida eu consiga decidir com clareza quais sofrimentos desejarei viver intensamente. Que eu consiga fazer pontes com as dores, para que elas me religuem cada vez mais com a eternidade.
Daniela Bonafé
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