quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Solstícios e Equinócios.

Vivi muitos ritos de passagem.

Alguns socialmente. Compartilhando com os meus.

Outros solitários, internos, só para mim.

Fui uma católica muito praticante e vivi todos os ritos da religião com muita intensidade e energia: fui batizada em Aparecida do Norte cumprindo uma promessa de minha mãe, fiz primeira eucaristia e celebrei muito esta etapa, me crismei em uma linda cerimônia, encontros de jovens que envolveram toda a minha família (precisamos falar sobre isso em algum momento, rsrsrsrsrs).

Para mim após cada rito a vida se transformava de alguma maneira: eu, o universo, quem estava ao meu redor.

Os ritos, neste sentido, são momentos chave que são capazes de alterar o espaço e o tempo, toda nossa percepção. As mudança se tornam palpáveis. Morar com o meu marido, a concepção, o nascimento e a maternidade. Mas também quando deixamos de ser netos, sobrinhos, filhos e pais. São ritos pessoais e sociais que nos modificam para sempre. A espessura do ar, o som do ambiente, a passagem do tempo... tudo parece diferente. Consigo me recordar de cada segundo destes acontecimentos em uma projeção muito diferente das captadas pelas filmadoras.

No entanto, ao mesmo tempo que vejo a importância destes ritos para me tornar quem sou, estou me afastando de todas as formas ritualísticas da sociedade capitalista em que estamos inseridos. Não quero mais me obrigar a estar com as pessoas porque alguém decidiu que hoje é dia de se fazer isso ou aquilo. Dividir minhas frustrações e conquistas com o calendário estabelecido. Comprar, comer, viver coisas que poucos se lembram da origem.

A tarefa para a Outra Metade da Vida é buscar momentos chave que façam sentido para mim e minha família. Celebrar o solstício e o equinócio (como faz um amigo), programar anualmente um banho de cachoeira familiar, pular ondas em todos os nossos aniversários, escrever nossos desejos de ser e não de ter.

Saber reconhecer estes momentos que precisamos fechar os olhos, respirar devagar e gravar para sempre na memória: porque preenchem ou sangram o nosso coração.

Ana Maria Guabiraba.  

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