Vivi muitos ritos de passagem.
Alguns socialmente.
Compartilhando com os meus.
Outros solitários, internos, só
para mim.
Fui uma católica muito praticante
e vivi todos os ritos da religião com muita intensidade e energia: fui batizada
em Aparecida do Norte cumprindo uma promessa de minha mãe, fiz primeira
eucaristia e celebrei muito esta etapa, me crismei em uma linda cerimônia,
encontros de jovens que envolveram toda a minha família (precisamos falar sobre isso em algum momento, rsrsrsrsrs).
Para mim após cada rito a vida se
transformava de alguma maneira: eu, o universo, quem estava ao meu redor.
Os ritos, neste sentido, são
momentos chave que são capazes de alterar o espaço e o tempo, toda nossa
percepção. As mudança se tornam palpáveis. Morar com o meu marido, a concepção,
o nascimento e a maternidade. Mas também quando deixamos de ser netos, sobrinhos,
filhos e pais. São ritos pessoais e sociais que nos modificam para sempre. A
espessura do ar, o som do ambiente, a passagem do tempo... tudo parece
diferente. Consigo me recordar de cada segundo destes acontecimentos em uma
projeção muito diferente das captadas pelas filmadoras.
No entanto, ao mesmo tempo que
vejo a importância destes ritos para me tornar quem sou, estou me afastando de
todas as formas ritualísticas da sociedade capitalista em que estamos
inseridos. Não quero mais me obrigar a estar com as pessoas porque alguém
decidiu que hoje é dia de se fazer isso ou aquilo. Dividir minhas frustrações e
conquistas com o calendário estabelecido. Comprar, comer, viver coisas que
poucos se lembram da origem.
A tarefa para a Outra Metade da
Vida é buscar momentos chave que façam sentido para mim e minha família. Celebrar
o solstício e o equinócio (como faz um amigo), programar anualmente um banho de
cachoeira familiar, pular ondas em todos os nossos aniversários, escrever
nossos desejos de ser e não de ter.
Saber reconhecer estes momentos
que precisamos fechar os olhos, respirar devagar e gravar para sempre na
memória: porque preenchem ou sangram o nosso coração.
Ana Maria Guabiraba.
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