Lula.
Escrevo esta carta por meio de um blog.
É um blog que escrevo com algumas amigas.
Falamos sobre nossas dúvidas, sonhos e esperanças para a segunda metade da vida.
E em comum temos esta ânsia de transformar a sociedade.
Assim como você. Assim como minha mãe.
Não tem como
falar de você sem falar da minha mãe.
Vocês
construíram uma história de luta e conquistas improváveis.
De um sucesso que poderia ser escrito no campo da meritocracia.
Ou das conquistas individuais.
Mas que pela força que impuseram
Chegaram a muitos, muitos mesmo.
Minha história
corre paralela, cruza em alguns momentos e se afasta em outros.
Lembro
perfeitamente a primeira vez que te vi.
Ainda era
muito criança,
Uma noite de
autógrafos.
Uma menina
magrela.
Um silêncio
ao me aproximar.
Um olho no
olho inesquecível.
E uma volta
para casa abraçada no livro.
Minha mãe, a
uma distância segura, observava.
Após muitas
manifestações juntas,
Campanhas,
Avanços e
retrocessos,
Comemoramos
sua primeira vitória com toda a força da nossa esperança.
Choramos
pela alegria que estava por vir.
Cantamos e
saímos daquela avenida roucas e completas.
O medo foi
derrotado.
As
contradições e crises tomaram conta do nosso governo e da nossa vida.
Não me orgulho
muito de algumas das nossas escolhas,
Nem do meu
ostracismo.
Ou da busca
pela minha tranquilidade individual.
Mas nossa
história (como a do nosso país) não se constrói na linearidade.
Compreender
nossos limites e avançar nas nossas possibilidades,
Nos permite chegar
onde precisamos.
Ou onde
precisam de nós.
O golpe
trouxe um turbilhão.
E depois nos
silenciou.
Eu, mãe e
irmão estávamos ali, embaixo do caminhão,
Ouvimos
atentos.
Continuamos
na nossa tarefa.
O um a um.
Os encontros
diários.
As conversas
tranquilas (ou não).
A indignação
que não nos deixa.
Construímos
juntas um modo de lutar.
Discreto.
Atrás dos
muros nas bocas de urna.
No meio da multidão nas manifestações.
Nas conversas diárias nos espaços que ocupamos.
No pequeno,
No
dia-a-dia,
Nos
bastidores.
Mas agora...
Agora...
Estamos
paralisadas.
Silenciadas.
Nos
restabelecendo.
Por que
muito em breve,
Em breve
mesmo,
Quando o
coração já não estiver sangrando tanto.
Estaremos a frente
do front.
Doando mais
do que imaginávamos ter.
Do nosso
modo.
Discreto.
Constante.
Sabendo que
o pequeno,
O cada um,
O um por um,
Se unido,
Junto,
Na mesma
passada,
Pode
construir uma sociedade mais justa e igualitária.
Uma
sociedade mais Lula.
Para a outra
metade da vida quero ter um pouco da coragem de vocês dois.
Ana Maria Guabiraba
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