domingo, 8 de abril de 2018

Carta ao Lula, ou A Esperança vai vencer o medo, ou Não poderão aprisionar os nossos sonhos.


Lula.

Escrevo esta carta por meio de um blog.
É um blog que escrevo com algumas amigas.
Falamos sobre nossas dúvidas, sonhos e esperanças para a segunda metade da vida.
E em comum temos esta ânsia de transformar a sociedade.
Assim como você. Assim como minha mãe.

Não tem como falar de você sem falar da minha mãe.
Vocês construíram uma história de luta e conquistas improváveis.  
De um sucesso que poderia ser escrito no campo da meritocracia.
Ou das conquistas individuais.
Mas que pela força que impuseram
Chegaram a muitos, muitos mesmo. 

Minha história corre paralela, cruza em alguns momentos e se afasta em outros.

Lembro perfeitamente a primeira vez que te vi.
Ainda era muito criança,
Uma noite de autógrafos.
Uma menina magrela.
Um silêncio ao me aproximar.
Um olho no olho inesquecível.
E uma volta para casa abraçada no livro.
Minha mãe, a uma distância segura, observava.

Após muitas manifestações juntas,
Campanhas,
Avanços e retrocessos,
Comemoramos sua primeira vitória com toda a força da nossa esperança.
Choramos pela alegria que estava por vir.
Cantamos e saímos daquela avenida roucas e completas.
O medo foi derrotado.

As contradições e crises tomaram conta do nosso governo e da nossa vida.
Não me orgulho muito de algumas das nossas escolhas,
Nem do meu ostracismo.
Ou da busca pela minha tranquilidade individual.
Mas nossa história (como a do nosso país) não se constrói na linearidade.
Compreender nossos limites e avançar nas nossas possibilidades,
Nos permite chegar onde precisamos.
Ou onde precisam de nós.

O golpe trouxe um turbilhão.
E depois nos silenciou.
Eu, mãe e irmão estávamos ali, embaixo do caminhão,
Ouvimos atentos.
Continuamos na nossa tarefa.
O um a um.
Os encontros diários.
As conversas tranquilas (ou não).
A indignação que não nos deixa.

Construímos juntas um modo de lutar.
Discreto.
Atrás dos muros nas bocas de urna.
No meio da multidão nas manifestações.
Nas conversas diárias nos espaços que ocupamos. 
No pequeno,
No dia-a-dia,
Nos bastidores.

Mas agora...
Agora...
Estamos paralisadas.
Silenciadas.
Nos restabelecendo.

Por que muito em breve,
Em breve mesmo,
Quando o coração já não estiver sangrando tanto.
Estaremos a frente do front.
Doando mais do que imaginávamos ter.
Do nosso modo.
Discreto.
Constante.
Sabendo que o pequeno,
O cada um,
O um por um,
Se unido,
Junto,
Na mesma passada,
Pode construir uma sociedade mais justa e igualitária.
Uma sociedade mais Lula.

Para a outra metade da vida quero ter um pouco da coragem de vocês dois.

Ana Maria Guabiraba



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