Falar de "utopias" para a outra metade da vida soava bonito e poético.
Achei que escreveria listas delas.
Passei uma semana toda pensando e a única coisa que retumbava na minha cabeça se resumia em apenas duas palavras.
Eu não tinha uma lista, um texto, apenas uma utopia:
REFORMA AGRÁRIA
Porque eu tinha ficado angustiada com uma ocupação que está acontecendo num bairro vizinho ao meu.
Estão construindo sobre um patamar de prédio que foi abandonado há mais de 14 anos. É a FLM, Frente de Luta por Moradia.
Mulheres, homens e crianças erguem tijolo a tijolo seus lares.
Todos os dias quando saio do trabalho e passo na frente da ocupação, me dá um nó na garganta.
Eu não quero que eles sejam despejados. São muitos. Estão dando um duro danado para dar teto para os filhos.
REFORMA AGRÁRIA
Depois de 7 dias, eu só tinha essa utopia. E sentia que tudo se resumia a ela.
Contei às minhas amigas de blog e, para nossa surpresa, ninguém tinha escrito nada! Nenhuma palavrinha! O que será que tinha acontecido com a gente?
Decidimos escrever sobre o porque não conseguimos escrever.
E, para meu desconsolo, eis que isso também foi difícil.
Como é duro lidar com as ausências que nos preenchem a alma!
Ultimamente sinto que tenho poucas esperanças, especialmente nas coisas que mais prezo e acho relevantes.
REFORMA AGRÁRIA
Sim, claro, esta é uma utopia do agora e do depois, é uma de minhas permanências, é algo que não consigo imaginar fora de meus sonhos para nós.
A ocupação do espaço, a divisão do espaço, o espaço, enfim, é algo que vem tomando conta de grande parte de meus pensamentos.
Cada vez mais se instala em mim uma resistência, que luta por espaço de voz, de vez, de ser.
E o que mais?
Será que me restou apenas esse sonho?
Por que?
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Todo o santo dia um murro.
Nas costas, quando falam de mim sem ao menos me conhecerem.
No estômago, quando batem numa criança e eu fico sabendo.
Na panturrilha, quando um profissional quer destruir meu trabalho.
No fígado, quando roubam nosso dinheiro e nossa dignidade.
Na cara, quando fecham uma exposição de Arte.
No ouvido, quando um aluno berra seus palavrões na aula.
Na boca, quando sou assediada moralmente.
No peito, quando me tratam de maneira machista.
No útero, quando uma menina de 13 anos fica grávida.
No alma, quando colocam fogo numa creche.
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É muito murro. De tanto baterem fiquei sem utopias.
Espero que seja só por uma semana.
Daniela Bonafé
Uma triste e profunda reflexão. No Tietê, há um prédio abandonado e que há anos foi invadido. Fiquei sabendo disso há pouco tempo, quando estacionei meu carro no que era o vallet desse lugar. Me deu uma sensação muito boa de saber que aquele lugar estava tendo uma serventia tão humana, com certeza, bem longe do propósito pelo qual foi construído. Agora, toda vez que passo por lá, rezo pra que aquelas famílias estejam sempre em segurança.
ResponderExcluirPois é Denise, isso anda cada vez mais latente no meu coração. Obrigada pela partilha. Não estamos sós!
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