sexta-feira, 20 de julho de 2018

Essencialidades da Vida


Vou tendo a sensação de que pensar sobre o que é essencial, distancia-nos das essencialidades da vida, talvez porque seja difícil definir e buscar tal definição, talvez porque restringir em palavras torne tudo artificial ou superficial; talvez porque o que é essencial mesmo será apenas sentido e não explicado... De toda forma, penso que o que é essencial hoje para mim, nem passava pela minha cabeça nos anos incríveis da minha infância e não sei se pautarei exatamente o mesmo no futuro. Neste momento, definiria a essencialidade como tudo aquilo que vivemos e que fica, de alguma forma, impregnado na gente, caracterizando-nos em gostos, cheiros, jeitos, vistas da vida e de nós. Talvez a essencialidade não seja marcada apenas pelo que é bom e positivo, mas é assim que a vejo nesta fase da vida; acho até que chamaria de essencial tudo aquilo que quisesse eternizar e, por esta razão, esta será a minha escolha: relatar um momento que vivi há pouco tempo para eternizar, pois foi o desejo que senti naquele momento... Segurar com as minhas mãos...
Era mais uma noite que se iniciava em minha vida após um longo dia de trabalho, daqueles bem cansativos mesmo. Não tinha nem conseguido jantar, saí do trabalho com as energias quase no fim, até um pouco desanimada com o curso das coisas. Um pouco antes de chegar em casa, toca meu celular e sou surpreendida pela voz de meu filho Teo de sete anos no outro lado da linha. Perguntava onde eu estava e, de fato, estava chegando, a menos de dois quilômetros de casa. Em seguida, ele me pergunta se eu desejava contemplar a noite com ele e com a minha filha Sofia de cinco anos.  Foi uma pergunta tão poética que não podia perder a oportunidade de experimentar onde tudo isso daria, ele me informou que já estava tudo pronto: esteira, livros e almofadas no quintal sob a linda lua que se apresentava. Foi quando me dei conta de que a noite estava realmente aconchegante, parecia uma noite quente de verão, mas era outono mesmo. Não podia recusar, era o convite da minha vida. Morria de fome e cansaço, mas tudo isso devia esperar.
Ao chegar em casa e perceber o cenário que prepararam sem a ajuda de um adulto, meu querido companheiro e brilhante pai estava desmaiado no sofá, fiquei entusiasmada no sentido literal da palavra: eu sentia Deus dentro de mim... Ao deitar naquela esteira junto com aquelas crianças, fui capaz de sentir uma sensação de plenitude tamanha que não pude mensurar, desejei parar o tempo, sentir aquilo tudo para sempre; a lua e a noite eram nossas, era um momento essencial de nossas vidas: contemplávamos a noite, a vida que passava e a partilha do que éramos. Fui buscar um prato de comida, descascamos e chupamos umas sete mexericas, conversamos e rimos muito à luz do luar.

Sandra Bouças

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