terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Um soneto sobre o medo e outras considerações

Vem o polvo do medo 
- tentáculos espalhados,
que edifica em segredo
casas, muros, telhados.

De um bailar sedutor
que nos detém a mão,
paralisa, em torpor,
intentos do coração.

Tinta negra esparrama,
fétida cor que anoitece
o claro fulgor da chama.

O polvo insistente tece,
faz sua morada na cama
sob o jugo da prece.
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Perdi, faz tempo, a medida do medo saudável, aquele que nos protege de perigos iminentes. É tanto medo que minha pele dói ao toque, então cuido para não adoecer demais dele. O medo nunca me venceu na entrega e no amor, mas em todas as outras coisas e formas de sentir. Às vezes penso tanto... É o medo na cabeça. Noutras vezes meus pés afundam, paralisados, na areia movediça... É o medo que interrompe planos. As borboletas no estômago e alergias inúmeras... É o medo no corpo. Acordo e me olho no espelho: um mosaico de medos. Meu maior desejo já foi que o medo desaparecesse ou, ao menos, se revelasse com mais ternura. Hoje desejo que ele apenas se aninhe por menos tempo que antes. Isso já me basta e me traz conforto.


Daniela Bonafé

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