Até uns dez anos, casamento para mim era como um conto de fadas e princesas: brilhante, bonito, feito de um amor eterno reluzente. Cheguei aos vinte tendo a absoluta certeza de que me manteria longe dele, já que casamento tinha se tornado uma mentira mal lavada: o amor não era libertário e eu, de Aquário, estava destinada a viver só. Quase perto do início da outra metade da vida, já casei três vezes com a mesma pessoa e percebo o casamento como um movimento constante do que chamo de amor.
Amor e casamento têm poucas coisas em comum para mim. Um é solto, o outro prende. Um corre, outro caminha. Um está na fadiga da busca e o outro na paz (ou não) do encontro. Amor e casamento são tão díspares que é difícil conjugá-los para que andem juntos. Requer trabalho.
A vida foi me tornando resiliente e meus casamentos foram feitos de todos os tipos de experiências: regados a flores e lágrimas, tratados com doçura e desespero, marcados de intimidade e discussões, aquecidos de sexo e raiva, mantidos com luta e paixão, exemplos de boas e más escolhas... Foram anos de acertos e erros, tentando sempre o melhor de nós, num árduo e prazeroso trabalho.
Vieram filhos para amar, casa para cuidar, contas para pagar, histórias para contar, memórias para lembrar, viagens para cansar e descansar, buracos para fechar e muitas, muitas descobertas. Descobertas sobre mim e não sobre o outro.
Na outra metade da vida eu não sei se estarei casada. Tenho em mim a tranquilidade de pensar que a minha passagem na Terra é uma caixa de surpresas para eu abrir a cada nascer do sol. Mas se eu pudesse determinar o futuro, gostaria de continuar casada.
O que eu desejo de um casamento após os quarenta é que ele não seja de migalhas, de mentiras e de metades; nem de misérias, mazelas e misancénes.
Que o casamento some sem diminuir um ou outro
Que ele abrace sem limitar os braços
Que seja livre sem algemar os sonhos
Que seja grande na simplicidade dos velhos e bons hábitos
Que seja forte na fragilidade do tempo
Que dure o suficiente para trazer uma inquieta felicidade
Que seja infinito na brevidade de um olhar ou de um sorriso
E viva o amor!
Daniela Bonafé
Daniela Bonafé
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