domingo, 22 de outubro de 2017

Florescer


Jeans, camiseta, all star.
A cara lavada.
Cabelo de menino.
Definitivamente sempre passei longe da imagem de uma mulher feminina.

Independente que sou, procurei dar conta sozinha de mim e das coisas, do trabalho e da casa, mais tarde também dos filhos e de todas as responsabilidades que a maternidade envolve, mesmo tendo um companheiro. O lado prático masculino tomou a frente por anos.

Completei esse cenário com a luta feminista, que por um tempo me trouxe a certeza esquisita de que eu não precisava de mimos, carinhos e gentilezas. Cuidei sem ser cuidada, protegi sem ser protegida, olhei sem ser notada, nem por mim mesma.

Ando pela terapia conversando sobre isso. Faz tempo que procuro caminhos de reencontro com meu feminino sagrado e abandonado à própria sorte. A última vez que flertei com ele demoradamente foi quando pari naturalmente meu último filho: foi bom sentir a força da Lua, a sabedoria de uma anciã, a garra de uma amazona e o grito gemido de uma loba.

Arduamente venho trabalhando no resgate da bruxa que me habita, da amante que vive em meu sexo e da princesa que dorme em meu coração. Dói às vezes. O disfarce de uma mulher maravilha e masculina me serviu de proteção por anos a fio, mas ele não cabe mais em minhas perspectivas, ele não me veste tão bem agora.

Tenho contornos mais fluidos e delicados, a alma mais sedenta de espaços amplos e diversos. Eu não aceito mais migalhas. As entranhas do meu útero  e da minha pele latejam a vontade de viver como sou, sem armaduras.

Quero seguir adiante o florescer da mulher que eu descobri ser.


Daniela Bonafé

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