DINHEIRO IDEOLÓGICO
Sempre foi assim: desapego de tudo, até de dinheiro. Importante mesmo é ter o suficiente para não passar necessidades, pensava. Até que surgiram as perguntas que não dormem: Quais são as necessidades? Priorizar o quê?
DINHEIRO TRABALHADO
Nunca foi suficiente o tal salário porque não recebe o que merece. E quem recebe o que merece? Trabalha muito e não ganha muito, mas escolheu assim. Será que escolheu mal? Todos dizem que sim. Repete sempre que é feliz no trabalho mas não com o salário. Enfim, é feliz ou não?
DINHEIRO INVISÍVEL
O dinheiro é assim: entra e sai da rotina da família sem jamais ser visto. Muitas contas para pagar. Quis filhos, carro, casa grande e perto de tudo. Quis mais do que devia? Vai ver que sim, afinal está sempre devendo. Mas é melhor dever dinheiro ou dever a alma?
DINHEIRO APLICADO
Não, não tem fundos e ações. A melhor aplicação do dinheiro acredita ser na educação. Não hesitou em gastar com materiais, cursos, mensalidades, especialmente para as crianças. Pensou que o poder está no saber e não no dinheiro. Às vezes se questiona: Será que a contramão é ainda o melhor caminho?
DINHEIRO GENEROSO
O conceito solidário socialista é colocado em prática na família, ainda que os mais velhos dela sejam de direita. Pensam estranhamente que dinheiro é para ajudar e repartir. Foi a generosidade que proveu os bens difíceis de serem mantidos. Eterna gratidão é dívida? Será que consigo pagar com minha presença constante? Porque putz, dinheiro não tenho!
DINHEIRO DESTRUTIVO
De tanta dependência, sentiu-se incapaz frente ao dinheiro generoso. De tanta falta, sentiu-se pequena diante do dinheiro trabalhado. O dinheiro invisível virou pauta de discussão da relação. O dinheiro ideológico martelava em sua cabeça enquanto se questionava se o dinheiro aplicado estava compensando. A autoestima se esvaiu pelo ralo, foi o dinheiro que fez isso.
DINHEIRO SALVAGUARDA
Na emergência, o dinheiro vai para a terapia. Também já foi para o plano de saúde, era preciso fazer os diversos exames. Tanto estresse por dinheiro adoeceu o corpo. Para salvaguarda da integridade humana, esse dinheiro é gasto e acredita-se que fez bem assim. Mas as pessoas cochicham: Se é adulta e vacinada, dona de si, por que não consegue o próprio dinheiro? E se consegue, fica gastando com essas conversinhas?
DINHEIRO CONSTRUTIVO
Fez reformas e doações, conheceu lugares e saberes, pariu rebentos e ajudou amigos. Com o dinheiro construiu seu mundo e vive nele com entrega e amor. Come bem e dá de comer. Os animais são tratados com o cuidado que tem pelas pessoas. Dá para reclamar de dinheiro? Não, não dá, há muita gente na miséria, é uma vergonha pensar isso! Não reclamo nunca mais!
DINHEIRO CULPADO
Se não tem dinheiro é sua culpa, escolheu errado e não sabe gerir. Se tem dinheiro é sua culpa também. Tanta gente que não tem... Não sabe dividir? E se não sabe nada de dinheiro, é a pior culpa! Se não sabe é porque está perdido no vão intergaláctico e atemporal entre o SER e o TER. Bom mesmo era na infância, em que a gente trocava uma nota de 100 por 10 moedas de 1 e achava que estava no lucro, com aquele montinho pesado e prateado no bolso.
DINHEIRO NO FUTURO
Pelo andar da carroça (porque carruagem não é coisa de pobre), vai ser dinheiro contado no futuro. Mas vai ter vivido. Deverá para bancos como sempre, mas o coração continuará limpo. Alimentará o cofrinho de outras gerações com moedinhas mesmo que a fila do SUS canse as pernas. E o sol de manhã será sempre bonito. E a lua e as estrelas também.
Daniela Bonafé
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