domingo, 26 de novembro de 2017

Sem excessos: de contenção ou de gastos

Quando eu era adolescente eu participava da Pastoral da Juventude. Era de uma ala da Igreja Católica mais preocupada com as questões sociais. A minha vontade para a primeira metade da vida era ser missionária. Me imaginava em algum país africano, ou da América Latina, nos confins do Brasil. Enfim, em algum lugar onde eu pudesse ser útil. Minha inspiração era São Francisco de Assis, jovem rico que deixou toda a fortuna para ajudar os mais necessitados. Com a diferença que eu não tinha muito para deixar e também não era santa. Poucos anos depois desisti da ideia. Ser freira não era para mim: a castidade seria um problema.

Se passei a ter uma visão crítica da religião, que até hoje me afasta das estruturas, a verdade é que essa experiência me marcou por toda a vida, para o bem. Principalmente o que ficou para mim foi uma preocupação maior com as vivências, com o ser e não o ter. Mas reconhecendo as minhas vaidades e as minhas necessidades de consumo.

Por ter vivido uma experiência de endividamento familiar, que se arrastou por anos, decidi firmemente que seria uma adulta com uma relação tranquila com as finanças. Desde que comecei a trabalhar, nunca fiquei desempregada. Até pouco tempo atrás não sabia o que era crédito consignado ou fatura do cartão de crédito em atraso.  E não é porque o meu salário fosse extraordinário (muito pelo contrário), mas porque nunca tive algumas necessidades: meu guarda roupa é muito simples (muito criticado pelas minhas irmãs, rs); minha preocupação estética sempre foi básica; e nunca tive a ânsia de ter os produtos do ano. O que não significa que eu não consuma: quero conhecer o mundo, provar de boa comida e arte. O que não deixa tudo mais fácil.

Mas aos trinta e cinco, a minha vida já não é só mais minha: tem também um marido e três filhas (duas humanas e uma canina). Gastos básicos que se multiplicam: escola, uniformes, materiais escolares, alimentação, saúde e por aí vai. E vivemos também uma reforma na nossa casa que ficou linda, mas que nos deixou bastante endividados. Deixamos de gastar dinheiro com as vivências que nos faziam bem, arrumamos novos trabalhos e perdemos a qualidade de vida. Daí tiramos uma grande lição: não queremos mais nada que nos aprisione e nos adoeça, mesmo que tenhamos que abrir mão de algumas coisas. Minhas filhas herdarão a nossa residência, educação, as nossas andanças pelo mundo e amor pela vida. O resto vai ser conquista delas e do seu trabalho.

Para a outra metade da vida desejo ter dinheiro suficiente para viver com tranquilidade, sem excessos de contenção ou de gastos, nutrindo o meu corpo e a minha alma.

PS: agradeço o convite para partilhar desse espaço e dessas reflexões com essas mulheres que admiro e me identifico desde o primeiro dia que as conheci.


Lívia Freitas

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