Quando eu era adolescente eu participava
da Pastoral da Juventude. Era de uma ala da Igreja Católica mais preocupada com
as questões sociais. A minha vontade para a primeira metade da vida era ser
missionária. Me imaginava em algum país africano, ou da América Latina, nos
confins do Brasil. Enfim, em algum lugar onde eu pudesse ser útil. Minha
inspiração era São Francisco de Assis, jovem rico que deixou toda a fortuna
para ajudar os mais necessitados. Com a diferença que eu não tinha muito para
deixar e também não era santa. Poucos anos depois desisti da ideia. Ser freira
não era para mim: a castidade seria um problema.
Se passei a ter uma visão crítica
da religião, que até hoje me afasta das estruturas, a verdade é que essa
experiência me marcou por toda a vida, para o bem. Principalmente o que ficou
para mim foi uma preocupação maior com as vivências, com o ser e não o ter. Mas
reconhecendo as minhas vaidades e as minhas necessidades de consumo.
Por ter vivido uma experiência de
endividamento familiar, que se arrastou por anos, decidi firmemente que seria
uma adulta com uma relação tranquila com as finanças. Desde que comecei a
trabalhar, nunca fiquei desempregada. Até pouco tempo atrás não sabia o que era
crédito consignado ou fatura do cartão de crédito em atraso. E não é porque o meu salário fosse
extraordinário (muito pelo contrário), mas porque nunca tive algumas
necessidades: meu guarda roupa é muito simples (muito criticado pelas minhas
irmãs, rs); minha preocupação estética sempre foi básica; e nunca tive a ânsia
de ter os produtos do ano. O que não significa que eu não consuma: quero
conhecer o mundo, provar de boa comida e arte. O que não deixa tudo mais fácil.
Mas aos trinta e cinco, a minha
vida já não é só mais minha: tem também um marido e três filhas (duas humanas e
uma canina). Gastos básicos que se multiplicam: escola, uniformes, materiais
escolares, alimentação, saúde e por aí vai. E vivemos também uma reforma na
nossa casa que ficou linda, mas que nos deixou bastante endividados. Deixamos
de gastar dinheiro com as vivências que nos faziam bem, arrumamos novos
trabalhos e perdemos a qualidade de vida. Daí tiramos uma grande lição: não
queremos mais nada que nos aprisione e nos adoeça, mesmo que tenhamos que abrir
mão de algumas coisas. Minhas filhas herdarão a nossa residência, educação, as
nossas andanças pelo mundo e amor pela vida. O resto vai ser conquista delas e
do seu trabalho.
Para a outra metade da vida
desejo ter dinheiro suficiente para viver com tranquilidade, sem excessos de
contenção ou de gastos, nutrindo o meu corpo e a minha alma.
PS: agradeço o convite para
partilhar desse espaço e dessas reflexões com essas mulheres que admiro e me
identifico desde o primeiro dia que as conheci.
Lívia Freitas
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