domingo, 4 de fevereiro de 2018

Mira Me

Olho no olho todos os dias.

Por um tempo, míope, vi o mundo pelas lentes.
Estranho tomar banho sem ver os próprios pés.
O laser e minha determinação colocaram um fim nisso.
Rever meu corpo e as paisagens, como quando eu era criança pequena, é ainda um prazer sem limites.

Não escolho o que quero ver.
Tenho mania de ver tudo e cada um.
Meus olhos fitam bichos, insetos, minúsculos detalhes não me escapam.
Às vezes vejo milimetricamente e ajusto quadros nas paredes alheias.

Ao sorrir, fecho os olhos.
Sim, é de família.

Para o dia-a-dia tenho mil olhos.
Olhos atentos aos filhos e compromissos, ao fogo e ao livro.
Mas meus olhos não olham os horários.
Também não enxergam as chaves, celular e outros objetos perdidos dentro da bolsa.

Como se fosse mágica, meus olhos se dirigem ao interior.
Se perdem no silêncio do meu dentro.
Vejo só o meu espaço e minhas gavetas de guardar memórias e desejos.
Gosto de me ver nos poucos minutos que me dou de solidão.

Não tenho olhos secos.
Vivem marejados até nos comerciais de margarina.

Olho com espanto a inveja.
Olho com desespero a maldade.
Olho com compaixão a miséria.
Olho com encantamento a natureza.

Especialmente enxergo pelos sonhos.
Acho que se chama terceiro olho.
Antecipadamente sei das passagens dos outros.
Então há noites que não gosto de ver.

Se me concentro, vejo as cores das pessoas.
Meus olhos ficam estatelados.
Devem pensar que sou meio doida.
Antes eu ligava para o que pensavam e agora nem tanto.

São castanhos e arregalados.

Todas as manhãs meus olhos descortinam o dia.
Eles se surpreendem com o amor,
Que cresce na mesma medida do medo de não estar.
Me vejo passando no tempo e o tempo passando.

Eu quero ver por muito tempo.

Que meu olhar aponte delicadezas
E nunca se desvie da paixão.
Que meu olhar viva indignado frente às injustiças
E seja palco de criatividade.
Que meu olhar se ilumine com as belezas cotidianas
E seja o acolhimento de quem dele precisa.


Daniela Bonafé

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