Ritualizar: marcar, pontuar, compreender com o coração, findar um tempo para iniciar outro, interagir com o universo, rememoriar, resgatar a ancestralidade, criar laços e raízes, fazer planos, manter vínculos, (re)inventar histórias.
São tantas passagens dentro de uma só que, para mim, rituais trazem calma e calor, coragem e contentamento. Com os ritos de passagem eu lembro quem sou e minha identidade se reafirma, se reanima e então eu sigo confiante.
Procuro trazer aos meus filhos inúmeros rituais para que vejam magia na rotina e beleza nas pequenas aventuras da vida.
Comemoramos aniversários, dentes que caem, Natal, a chegada do ano novo, Páscoa, nascimentos, festas juninas, conquistas esportivas, a chegada da primavera, as luas cheias... Lavamos pedras, fazemos velas e biscoitos, arrumamos e decoramos a casa, criamos cantinhos e histórias, costuramos guirlandas, cantamos orações que inventamos, aprontamos poesias...
Em casa chegam anjos e fadas, duendes e elfos, Iemanjá e Oxum, coelhinho e Papai Noel, São Micael e Nossa Senhora, sacis e mago do fogo... Para cada rito um ser, com qualidades e defeitos, para nos inspirarmos. E se o rito é pessoal, como um novo ciclo de trabalho ou casa nova para morar, lá vamos nós! Hora de inventarmos histórias e seres para acompanharem estas passagens e darem a elas um colorido mágico.
Também vou a velórios e enterros das pessoas especiais para mim e que estão realizando suas extraordinárias passagens para a memória e saudade. Presenciar esses ritos me lembra de minha própria efemeridade e da importância de manter-me consciente disso, para que eu desfrute de cada experiência (sendo boa ou ruim) com plenitude.
Quero continuar fazendo isso, mesmo que de repente, no curso do crescimento de meus filhos, já não acreditem mais nas fantasias e na relevância de ritualizar a vida.
Eu acredito em rituais, em tudo o que é mágico e encantado, mesmo quando o mundo todo diz que nada disse existe. Sou daquelas que não duvida da existência de nenhum ser e nem das forças envolvidas em cada passagem, do visível e do invisível que cabe em cada transição para outro lugar de ser e estar no mundo.
Ser passagem para outras passagens - duas em curso e duas completadas, pelo menos nesse plano - trouxe-me a magnitude de amar incondicionalmente mas com a fluidez do desprendimento. Ritualizar os nascimentos e mortes de meus filhos trouxeram paz para o ventre e para o pensamento.
Sem os ritos e rituais de passagem eu já estaria bem morta e enterrada, com os pontos entregues numa bandeja de desesperança. Sou feita da intensidade de cada passagem que vivi e que decidi marcar no meu íntimo e para sempre. Faço isso para eu nunca me esquecer de mim e para que minha história esteja ao meu alcance.
Eu sou passageira e sou também passagem.
Daniela Bonafé.
Linda!!!
ResponderExcluirParabéns!!!!
Obrigada por acompanhar!!!
ExcluirTexto lindo, Dani!
ResponderExcluirObrigada e saudades!
Excluiradorei !
ResponderExcluirObrigada e continue nos visitando!
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